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domingo, 7 de março de 2021

CURITIBANOS - O INÍCIO!

Texto de Antonio Carlos Popinhaki


A primeira vez que se teve notícias sobre o lugar chamado Curitibanos foi quando em 1733, o tropeiro Cristóvão Pereira de Abreu passou pelo local com cerca de 3 mil cabeças de gado provenientes do Rio Grande do Sul com destino às Minas de Ouro Preto. Depois de chegar ao seu destino, ele vendeu o gado a peso de ouro. Provavelmente, foi nesse tempo que se firmou um lugar chamado de “Pouso dos Curitibanos”, pois em 1737 apareceu esse nome num mapa feito pelo Padre Diogo Soares. O caminho ou rota por onde os tropeiros passavam com o gado foi aberto anteriormente pela expedição do Sargento-Mor Francisco de Souza Faria e por carta, foi indicado para o missionário como o roteiro usual. O Padre Diogo Soares veio de Portugal em 1729 com um outro Padre de nome Domingos Capaci em missão oficial para a Igreja Católica, provavelmente de reconhecimento.

Na epístola do Sargento-Mor ao Padre, foi citado que no local chamado de “Campo dos Curitibanos”, havia, como o nome sugere, campos e algumas restingas, bem como também, capões de mato. Nesses capões havia muitos córregos e rios.

Também relatou na sua carta, que durante uma viagem ocorrida, nos meses de março até setembro, eles permaneceram entre a Serra Vacaria até os Campos Gerais de Curitiba. Nesse período, eles encontraram caça abundante, principalmente antas e porcos. Se fartaram também de muito pinhão das imensas araucárias. O mel era em tanta abundância, que não só servia de iguaria para se comer com grande prazer, mas também, de sustento à tropa. Todo ele era sadio, das 63 pessoas que estavam com o Sargento-Mor, só morreram dois negros de pura fome e miséria, não sendo explicado o porquê, pois havia abundância de alimentos. Também morreram, um branco e um índio, pelo muito que se fartaram de pinhão e mel.

Especificamente, não se pode afirmar hoje em dia o local exato desse lugar chamado de “Pouso dos Curitibanos”. Atalhos e rotas alternativas foram criadas para encurtar e melhorar a logística do tropeirismo. A “estrada” ou “caminho das tropas”, como ficou conhecido o caminho aberto, foi fundamental para a ligação norte-sul e também para o desenvolvimento regional do sul do Brasil. 

Em 1777 vieram os paulistas e os curitibanos (moradores de Curitiba) com o Regimento encarregado de vigiar a fronteira, depois que os castelhanos invadiram a costa de Santa Catarina. Foi nessa ocasião que foram organizados os postos de abastecimento, nos pousos entre Rio Negro e Lages. Em cada posto foi designado um feitor com a finalidade de adquirir e fornecer sal e mantimentos para o sustento das tropas que por ali passavam.

Esse sal e esses mantimentos eram disponibilizados, como forma de apoio para o pleno funcionamento do tropeirismo, com a promessa de ressarcimento pelo Rei de Portugal, coisa que não acontecia na sua plenitude. Alguns feitores de postos receberam muito tardiamente essa conta e outros nunca receberam o que venderam, causando enormes transtornos financeiros aos primeiros moradores dos pousos.

Em Curitibanos, o feitor foi o Capitão Antônio Jozé Pereyra, primeiro dono da então “Fazenda dos Curitibanos”. O nome Curitibanos deriva de Curitiba e significa na língua Tupi: “abundância de porcos”. Para a construção da vila de Curitiba houve uma espécie de orientação divina, corroborada pelo cacique Tindiquera, da tribo dos Tinguis, amigos do homem branco. Ele é que teria escolhido o local exato para erguer a futura vila. Fincou uma vara no chão e disse: “Coré etuba”. O argumento é de que o termo “coré”, em tupi-guarani, significa “porco”. E é “curiy” a palavra indígena para “pinhão” (“tuba” ou “tiba” significa “muito”). Portanto, o cacique queria dizer, ao indicar o local ideal para a nova vila, não aquilo que os pioneiros conseguiam ver à sua volta: os imensos pinheirais, mas sim que, nas redondezas, havia muitos porcos para fornecer carne. Diversos relatos de viajantes que passaram pelo “Primeiro Planalto do Paraná” na época, aliás, fizeram menção à profusão de porcos na região. O fato é que, por muito tempo, a cidade, inclusive, teve dupla grafia: ora aparecia Curityba (terra dos pinheirais), ora Coritiba (terra dos porcos). A grafia do nome da cidade só veio a ser definida oficialmente em 1919, por uma resolução da Câmara Municipal. A cidade passou a se chamar definitivamente Curityba – que, após a reforma ortográfica de 1943, virou Curitiba. Assim, por decreto, a cidade ficou sendo a terra dos pinhões e não Coritiba da abundância de porcos. Para a necessária compreensão de um público leigo eventualmente interessado, resume-se o problema no simples significado do topônimo diante de três étimos guaranis, curiy, designativo de pinheiro, curé e coré, que significam porco. O resultado destes radicais associados ao sufixo tupi “tiba”, que designa quantidade ou abundância, concorreu para a formação de dois substantivos parecidíssimos, Curitiba e Coritiba, diferentes apenas por uma letra.

E da mesma forma, o significado pode ser aplicado ao nome Curitibanos que é uma alusão aos tropeiros, moradores de Curitiba, que por aqui passavam e pernoitavam com suas tropas. Havia no local, também, muitos porcos e muitos pinheiros e pinhões. O nome de Curitibanos deriva de Curitiba. O lugar foi conhecido muito antes da abertura da estrada do caminho das tropas. Os primeiros moradores de Curitiba vieram até a região procurar ouro e prata. Eram os bandeirantes mineradores ou bandeiras mineradoras como ficaram popularmente conhecidos.

O nome Curitibanos, vem de “Campos dos Curitibanos”, conforme era conhecida a região. Está associado aos mineradores de Curitiba. Antes se escrevia Coritybanos, depois foi alterada conforme a mudança feita no nome da capital do estado do Paraná.


Referências para o Texto:


LEMOS, Zélia de Andrade. Curitibanos na história do Contestado, 2ª ed. Curitibanos: Impressora Frei Rogério, 1983.


MARINS, Fernando; HOERNER, Valério. Coluna do Fernando Marins / Gazeta do Povo Ano 2009 e Valério Hoerner Júnior escritor Significado do nome Coritiba na língua Tupi: Abundância de porcos. On line: disponível em: https://www.jornalolhonolance.com.br/2016/05/significado-do-nome-coritiba-na-lingua.html



Antonio Carlos Popinhaki é Bacharel em Economia Agroindustrial pela Universidade do Contestado. Graduado em Licenciatura em História pelo Centro Universitário UniFaveni. Pós-graduado em Auditoria e Perícia Contábil pela Universidade Católica Dom Bosco. — Professor, escritor, historiador e pesquisador de história.


terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

NA BALSA DO POPINHAK

Por Antonio Carlos Popinhaki


A história a seguir, eu retirei dos escritos de Euclides J. Felippe, especificamente, de um dos seus muitos trabalhos, intitulado “O Caminho das Tropas! Curitibanos, o Berço do Tropeirismo em Santa Catarina”. O exemplar foi doado, conforme uma dedicatória escrita a próprio punho pelo autor, encontrada no início do livro, para o acervo do Museu Histórico Antonio Granemann de Souza de Curitibanos/SC em 26 de novembro de 1991. Contém muitas pequenas histórias relevantes que podem ajudar a muitos na preservação e na manutenção das tradições culturais curitibanenses. O livro está impresso numa espécie de cópia xerografada em folhas de papel Ofício, com a margem esquerda (medianiz) toda perfurada, sendo as folhas amarradas uma sobre a outra, com um cordão de cor esverdeado, muito bem amarrado. Provavelmente, o volume seria encadernado com uma capa dura. O texto também está publicado num outro livro do mesmo autor, conforme referenciei abaixo.

O título é “Na Balsa do Popinhak”, fazendo alusão ao meu tio-avô João Popinhak, que teve a concessão para construir uma balsa sobre o rio Marombas no final da década de 1930. Posteriormente, o meu avô Gregório Popinhak o substituiu temporariamente nesse serviço de balseiro, até ser contratado pela Fábrica de Papel e Papelão Marombas naquela localidade. A história segue abaixo, conforme o autor a apresentou em seu trabalho:

“Estamos em 1940. Durante a Segunda Guerra Mundial. Com a falta de gasolina, os nossos caminhões eram movidos a gasogênio (*) por combustão à lenha ou carvão, com o que diminuía a potencialidade do motor pela metade. 

O transporte de passageiros ainda se fazia por caminhões com toldas de lonas e os bancos de tábuas brutas presas aos lados da carroceria. Viajávamos para Caçador. Ao alcançarmos o rio Marombas, a balsa do Popinhak estava dando passagem a uma tropa de porcos. Após alguma espera, chegou a nossa vez. Ao atingirmos a margem oposta, faltou força ao motor para vencer a subida do barranco. O tropeiro e os peões foram solícitos em nos auxiliar a impelir o veículo até superar a rampa.

Um dos passageiros, que trazia um litro de conhaque, ofereceu um gole a cada um dos que ajudaram a empurrar o carro. Dirigindo-se ao tropeiro, que era homem franzino:

- Beba um trago, baixinho; você bem o mereceu.

Ao que o dono da tropa, tomando o litro às mãos, fez uma mesura, deu um passo à retaguarda e retrucou com altivez:

- Sou baixo na estatura, arto na posição. Grosso na algibeira, e fino na inducação.

O tropeiro foi ovacionado por uma forte salva de palmas”.

Essa foi mais uma das inúmeras histórias de tropeiros, que aos poucos vamos resgatando e passando adiante. A minha intenção é compilar, produzir e reproduzir textos que possam ajudar os alunos, pesquisadores, simpatizantes e pesquisadores da história curitibanense.


(*) Um motor específico que funciona com gases (nitrogênio, hidrogênio, monóxido de carbono, metano). O combustível gasogênio surgiu no Brasil durante a crise do petróleo decorrente da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o racionamento de gasolina imposto pelo governo brasileiro obrigou os motoristas a converter seus carros para funcionar com gasogênio (gás obtido por meio da queima de carvão). – Fonte: HTTPS://m.brasilescola.uol.com.br


Referência para o texto:


FELIPPE, Euclides J. Caminho das Tropas em Santa Catarina (O), O Pouso dos Curitibanos, 1ª edição do autor, 1996, Curitibanos-SC. 158 p.



Antonio Carlos Popinhaki é Bacharel em Economia Agroindustrial pela Universidade do Contestado. Graduado em Licenciatura em História pelo Centro Universitário UniFaveni. Pós-graduado em Auditoria e Perícia Contábil pela Universidade Católica Dom Bosco. — Professor, escritor, historiador e pesquisador de história.