Texto de Antonio Carlos Popinhaki
A trajetória de quem vivencia os bastidores do setor madeireiro e industrial no Brasil frequentemente se cruza com situações atípicas e marcadas pelo imponderável. No relato autobiográfico que une vivências no Norte e no Sul do país, destaca-se a figura de Antonio Carlos Popinhaki, um gestor cuja audácia o levou a cometer atos que ele próprio, em retrospectiva, definiu como verdadeiras “loucuras”: desarmar e testar pessoalmente os vigias noturnos das empresas em que trabalhava. Essa sequência de acontecimentos revela não apenas o perigo iminente de abordagens surpresa na escuridão da madrugada, mas também expõe as profundas vulnerabilidades da segurança privada e as contradições do comportamento humano diante do dever e do cansaço.
A primeira grande imprudência ocorreu no Pará, no Distrito Industrial de Icoaraci, em Belém. Após uma temporada comprando madeira no interior e vivenciando experiências marcantes na Ilha do Marajó, Antonio assumiu no ano de 1987 responsabilidades na sede da empresa. O pátio da fábrica era extenso e, em uma região assolada por constantes furtos e roubos, a administração tomou medidas rigorosas de vigilância. Contratou dois homens de meia-idade, municiando-os com espingardas calibre 12 e dividindo postos estratégicos entre o interior do galpão e a área dos fundos, delimitada por um igarapé. Sabia-se da complexidade do trabalho noturno, mas exigia-se o profissionalismo de quem portava armas de alto poder de impacto. Os vigias tinham ordens de cada um permanecer no seu posto de trabalho e não se comunicarem com conversas salvo por uma necessidade inerente ao cargo. Um vigia deveria ficar nos fundos do terreno e o outro, no interior dos barracões. Como o terreno era grande, mal podiam se ver, ainda mais à noite, quando é escuro.
Movido pela dúvida quanto à real prontidão da guarda, Antonio decidiu agir por conta própria, em uma madrugada, por volta das três e meia. Estacionou o veículo a quase quinhentos metros da propriedade, embrenhou-se no matagal totalmente no escuro e avançou sem produzir ruídos. O risco era absoluto, pois qualquer um dos guardas poderia tê-lo confundido com um invasor e disparado mortalmente. Para sua surpresa, contudo, a ameaça não veio da prontidão dos homens, mas de sua negligência: ambos dormiam profundamente no interior do barracão, com as duas espingardas encostadas lado a lado na parede. Caminhando na ponta dos pés, o gestor surrupiou as duas armas, caminhou de volta até o carro e as levou para sua residência.
Ao chegar no início da manhã seguinte, o autor deparou-se com os vigias na guarita e ouviu uma versão inventada pelos funcionários, que alegaram ter deixado as armas no barracão para checar um forte barulho nos fundos do terreno. Confrontando a fragilidade da justificativa, afinal, não fazia sentido investigar uma ameaça no escuro estando desarmados. Antonio aplicou-lhes uma dura bronca e os demitiu. A imprudência, porém, não se encerrou na demissão: após o acerto das contas formais, Antonio revelou aos ex-colaboradores que fora ele o responsável pelo sumiço do armamento, colocando-se novamente em posição de vulnerabilidade diante da possibilidade de uma vingança ou emboscada premeditada.
Anos mais tarde, após retornar casado a Santa Catarina e assumir a gerência da serraria e fábrica de beneficiamento de madeiras de seu tio na cidade de Curitibanos, o padrão de comportamento voltou a se repetir. Ao relatar ao vigia da fábrica catarinense o episódio ocorrido no Pará, o funcionário reagiu com indignação e lançou-lhe um desafio direto, garantindo que não dormia em serviço e alertando que dispararia contra o gerente caso este tentasse algo semelhante. Provocado em sua determinação e querendo tirar a prova, o autor esperou por uma madrugada de domingo congelante e chuvosa de inverno, momento em que a umidade e o frio rigoroso da serra criavam o cenário perfeito para o torpor.
Repetindo o ritual, o gerente deixou o carro distante, abriu o portão trancado com sua chave de acesso e caminhou apreensivo pelo pátio. Ao adentrar a serraria, encontrou o homem que o desafiara imerso em um sono tão profundo que parecia sonhar. A espingarda calibre 12 estava praticamente em suas mãos. Com extrema cautela, o autor retirou a arma do colo do trabalhador sem acordá-lo. Na manhã de segunda-feira, diferentemente do desfecho punitivo do Norte, a honestidade do vigia catarinense, que reconheceu o erro sem inventar desculpas, levou o gestor a relevar o fato, devolver a arma em particular e evitar a exposição do funcionário perante os demais colegas de trabalho.
Esses dois episódios, quando analisados sob a perspectiva do próprio autor, ganham contornos de compreensão humana. Tendo servido ao Exército e cumprido mais de oitenta dias de guarda com pouquíssimas horas de sono, além de ter enfrentado rotinas exaustivas ao longo da vida, como jornadas duplas entre o serviço diurno na madeireira em Curitibanos e o noturno no antigo Centro de Processamento de Serviços e Comunicações — CESEC do Banco do Brasil, com despertares rotineiros às cinco da manhã, ele reconheceu a extrema dureza que envolve a vigilância noturna. As ações arriscadas no Norte e no Sul do país, embora marcadas por uma ousadia limítrofe, acabaram por ilustrar o contraste entre a mentira que gera a demissão e a honestidade que permite o perdão e o aprendizado contínuo na gestão de pessoas.
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