segunda-feira, 30 de agosto de 2021

A HISTÓRIA DA IMPRENSA ESCRITA DE CURITIBANOS

Texto de Antonio Carlos Popinhaki


Por muitos anos, foi largamente difundido, que o primeiro jornal de Curitibanos foi “O Trabalho”. Lembro bem, que no ano de 2006, essa afirmação foi assunto para a elaboração de uma das perguntas de um concurso público realizado para vários cargos na Prefeitura Municipal. Quem respondeu, entre as demais alternativas para respostas, que foi “O Trabalho”, teve sua resposta validada como correta. Na verdade, essa informação não está correta, por mais que pesquisadores e historiadores renomados tenham afirmado isso em suas respectivas épocas. Conforme a pesquisadora curitibanense Zélia de Andrade Lemos, o jornal “O Trabalho” teve a sua primeira edição no dia 21 de novembro de 1907, segundo ela, esse teria sido o primeiro periódico a rodar nos lares e casas comerciais da então, “vila de Coritybanos”.

Pesquisando entre o acervo da Biblioteca Nacional e também na hemeroteca catarinense, da Biblioteca Pública de Santa Catarina, eis que deparamos com a imagem microfilmada de um periódico ainda mais antigo. Trata-se do exemplar número 4 do jornal “A Voz do Povo”, datado de 12 de outubro de 1902. Nos créditos do alto da primeira página, constatamos que a publicação era mensal e que era de natureza crítica, provavelmente, publicada por pessoas que faziam, na época, uma oposição à administração do “Chefe Velho”, ou do “Velho”, ou então, do “Coronel” Henrique Paes de Almeida Sênior. Pois essas alcunhas estão nos textos da edição citada daquele jornal.

Naquele ano houve eleições republicanas em Curitibanos. Depois de um longo período à frente da Superintendência Municipal, Henrique Paes de Almeida Sênior foi derrotado nas urnas pelo novato Francisco Ferreira de Albuquerque, que governou em Curitibanos desde 1903 até 1914, quase se perpetuando no cargo, como escreveu Zélia de Andrade Lemos.

O que podemos aprender com essa informação? Houve em Curitibanos, um jornal anterior ao conhecido “O Trabalho”? Por certo! Francisco Ferreira de Albuquerque, com a ajuda dos lageanos, dos compadres, padrinhos e irmãos da maçonaria (principalmente membros da família Ramos), sabendo das dificuldades para tirar o comando de Curitibanos das mãos do “Velho” Almeida, usou a imprensa escrita para criticar e mostrar oposição acirrada. E deu certo!

Com o passar dos anos, e já na cadeira da Superintendência, Francisco Ferreira de Albuquerque, aí sim, no dia 21 de novembro de 1907, com um grupo de Curitibanenses de coração, oficialmente, fez circular a primeira edição do periódico “O Trabalho”. Dessa vez, enaltecendo os feitos da Superintendência, bem como do Governo do Estado, que estava nas mãos do compadre mais de uma vez, Vidal José de Oliveira Ramos Júnior.

Para a época, a impressão do Jornal “O Trabalho”, era considerada impecável. Ainda existem alguns raros exemplares em museus de Lages e de Curitibanos. Imagens de algumas edições também estão disponíveis na página da hemeroteca catarinense.

Francisco Ferreira de Albuquerque foi um homem muito determinado. Fez vir de Blumenau a máquina tipográfica que resistiu ao ataque e incêndio da vila em 1914, e que se encontra no acervo do Museu Histórico Antônio Granemann de Souza de Curitibanos. Designou 40 homens para tal feito, ou seja, de transportar essa pesada impressora e seus componentes por caminhos tortuosos e de difícil passagem para a época, quando não haviam estradas, e sim, carreiros e caminhos abertos a facão.

Ainda, durante a gestão de Albuquerque, no dia 1.º de janeiro de 1909, foi fundado em Curitibanos, um jornal, cujo nome era “O Planalto” (de publicação semestral), sob a responsabilidade do Diretor-Gerente, senhor Domingos de Oliveira Lemos. Chamo a atenção, ao ler as matérias publicadas na primeira edição, que o referido jornal não era e nem fazia oposição ao já existente jornal “O Trabalho”, pelo contrário, não foram poupados elogios ao “Coronel” Francisco Ferreira de Albuquerque pela ajuda dada aos proprietários desse novo veículo de comunicação impresso.

Ao escrever sobre a imprensa curitibanense, tenho certeza, a julgar pelo material que consegui achar, que algum nome de periódico foi perdido ou deixado para trás, sem o devido registro ou crédito. A julgar pelo longo espaço de anos que se tornaram décadas entre a publicação do jornal “O Planalto” (1909), e o próximo na lista, que foi o “Correio dos Campos” (1952). Será que em mais de 40 anos, não houve mídia impressa em Curitibanos?

No ano de 1949, na ocasião das comemorações do centenário do nascimento do jurista Ruy Barbosa e também, ocasião em que foi inaugurada a Biblioteca Pública Municipal Desembargador Edgar Pedreira, o prefeito Salomão Carneiro de Almeida expediu convite para o Diretor-proprietário do Jornal “Correio do Norte”, de Canoinhas para vir até Curitibanos fazer a devida cobertura dos eventos. Por certo, em Curitibanos, não havia mídia impressa naquele ano.

No ano de 1954, apareceu em Curitibanos o “Jornal de Curitibanos”. Naquele mesmo ano, outro jornal foi inaugurado, talvez, reinaugurado. Tratava-se do “Correio dos Campos”. Nas edições de 1953, o diretor era o senhor Waldemar Luz, agora em 1954, apareceu como diretor o senhor Alaor Pires. Dois anos depois (1956), com esmero e capricho na impressão e também nos editoriais, Heraclides Vieira Borges inaugurou, ou novamente, reinaugurou, o novo “Jornal de Curitibanos”.

No início da década de 1960 estava circulando na região o Jornal “A Renovação”, atribuída a sua direção, ao Dr. Orozimbo Caetano da Silva. Ainda na década de 1960, apareceu em Curitibanos o jornal “Farol da Serra” do gaúcho de Guaporé, Gualdino Domingos Busato. Em 1966, esse semanário tinha como redator, o advogado, Dr. Reinaldo Pellizzaro.

Em 23 de maio de 1970, o caçadorense, Nilson Thomé, fez circular em Curitibanos o “Jornal do Planalto”. No ano de 1978, Gualdino Domingos Busato voltou a comandar um jornal impresso, dessa vez, nominou o periódico de, “O Farol”. A novidade foi o nome do redator, agora, estava sob a responsabilidade do advogado, Dr. Carlos Homem.

Em 24 de dezembro de 1982, surgiu o semanário “A Semana”, pelas mãos dos diretores Ubiratan Steffen Busato e José Augusto Steffen Busato. O redator era o advogado, Dr. Henrique Paulo Kern. Jornal esse, vendido posteriormente para o senhor Manoel Joaquim Figueira, que revendeu para os irmãos Renato e Hélio Westphal.  Esses, ampliaram e modernizaram a sua aparência por completo, criando uma identidade peculiar, comparado com outros jornais de cidades do interior. O semanário "A Semana" de Curitibanos, está entre os melhores das mídias impressas regionais e interioranas de Santa Catarina, recebendo quase que anualmente, algum prêmio de reconhecimento.

Ao longos das últimas décadas, outros empresários tentaram fundar e manter periódicos impressos em Curitibanos. Todos esbarraram nas dificuldades de manter a população informada, sobrevivendo, principalmente de anúncios. A renda para a permanência de uma empresa jornalística, vem inicialmente, das vendas de assinaturas e de exemplares avulsos. Com o passar do tempo, com a modernização das disseminações da comunicação, as receitas foram por um caminho notável até mesmo aos olhos dos mais leigos, são provenientes de anúncios, convênios com órgãos públicos, principalmente prefeituras, assinaturas, venda de espaços em classificados, e quase nada de vendas em bancas.

Saindo um pouco dos jornais e partindo para as revistas de informações, com destaque para páginas repletas de publicidade, encontramos na história de Curitibanos, diversas tentativas de solidificar esse tipo de trabalho. Cito aqui o empenho de Gualdino Domingos Busato, com suas revistas “Curitibanos e Região Hoje”, dos primeiros anos da década de 1990. Nos anos 2000 surgiram as revistas "Mix" e “Fique de Olho”. A técnica empregada é praticamente a mesma, tanto para os jornais, como para as revistas, informar os munícipes, em troca da propaganda dos empresários. 

Percebi já há algum tempo que a mídia impressa sofre de uma dificuldade moderna para chamar a atenção dos novos leitores e também, para manter os antigos e fiéis. Quase sempre, todas as notícias postadas nas suas páginas, já se tornaram notícias passadas durante alguns dias. Isso faz com que o leitor perca o interesse pelo conteúdo, imediatamente após visualizar a manchete ou o título acima do texto.

Anteriormente, os primeiros jornais impressos em Curitibanos foram institucionalizados com a finalidade de antagonismo político. Hoje, a falta de uma rivalidade e de um debate, afasta um considerável número de curiosos leitores. Por outro lado, há alguns que buscam informações, folheando e lendo, pois gostam dos editoriais, das colunas, como eu, por exemplo, leio os artigos daqueles que contribuem com textos em colunas fixas. 

E assim termino o texto sobre a imprensa escrita de Curitibanos, ressaltando-me no direito de reafirmar haver possibilidade de ter havido em nosso meio, outros periódicos não elencados. Para tal, proponho-me desde já a refazer ou readequar o texto, onde for necessário, casa apareça em minhas mãos provas convincentes da existência de jornais não citados.




Referências para o Texto:


Arquivo Nacional. On line: Disponível em: https://arquivonacional.gov.br/


Assembleia Legislativa de Santa Catarina. Dicionário político; CABRAL, O. Era; CABRAL, O. História; CÂM. DEP. Deputados; Diário do Congresso Nacional; Encic. Mirador; Grande encic. Delta; Ilustração Brasileira (12/22); JAMUNDÁ, T. Catarinenses; SENADO. Anais (22/7/35); TIAGO, A. História.


Biografia de Vidal José de Oliveira Ramos Júnior. On-line: Dispnível em: http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-biografico/vidal-jose-de-oliveira-ramos-junior

 

Hemeroteca Catarinense. Cidades. On-line: Disponível em: http://hemeroteca.ciasc.sc.gov.br/Cidades2/Curitibanos.html


LOPES, Alfredo Ricardo Silva. A Guerra dos e nos periódicos da Capital. On-line: Disponível em: https://www.academia.edu/831967/A_GUERRA_DOS_E_NOS_PERI%C3%93DICOS_DA_CAPITAL_AN%C3%81LISE_DOS_EMBATES_E_ALIAN%C3%87AS_ENTRE_AS_ELITES_POL%C3%8DTICAS_DE_FLORIAN%C3%93POLIS-SC_


POPINHAKI, Antonio Carlos. Jornal “Correio do Norte” — Canoinhas. Blog do Museu Histórico Antônio Granemann de Souza. On line: Disponível em: https://museuhistoricoantoniogranemanndesouza.blogspot.com/2021/06/jornal-correio-do-norte-canoinhas-13-de.html


POPINHAKI, Antonio Carlos. Jornal “O Trabalho”. Blog do Museu Histórico Antônio Granemann de Souza. On line: Disponível em: https://museuhistoricoantoniogranemanndesouza.blogspot.com/2021/05/jornal-o-trabalho-1907.html


POPINHAKI, Antonio Carlos. Jornal “Voz do Povo” — 1902. Blog do Museu Histórico Antônio Granemann de Souza. On line: Disponível em: https://museuhistoricoantoniogranemanndesouza.blogspot.com/2021/05/jornal-voz-do-povo-1902.html


LEMOS, Zélia de Andrade. Curitibanos na história do contestado. Edição do Governo do Estado de Santa Catarina, 1977. Curitibanos.


LEMOS, Zélia de Andrade. Texto preservado no acervo do Museu Histórico Antônio Granemann de Souza.

Nenhum comentário:

Postar um comentário