Texto de Antonio Carlos Popinhaki
Para entendermos e compreendermos a origem do nome do município de Curitibanos, é fundamental voltarmos ao passado distante, quando a região era habitada por povos indígenas. Cinco séculos antes da chegada dos portugueses, a serra catarinense e o meio-oeste abrigavam diversos povoados do povo proto-jê, ancestrais diretos dos xoklengs e kaingangs. Esses grupos indígenas ocupavam a vasta floresta de araucárias, estendendo-se desde parte do atual estado de São Paulo até o Rio Grande do Sul. Conforme o jornalista Santaella (2016), o termo 'proto-jê' engloba os ancestrais dos povos indígenas do Sul, que compartilhavam uma mesma família linguística.
Os povos proto-jê, com sua rica cultura e profundo conhecimento do ambiente natural, deixaram marcas significativas na região de Curitibanos. Suas tradições, costumes e modo de vida influenciaram a formação da identidade local e moldaram a paisagem da região.
O município de Curitibanos teve seu território original ocupado pelos indígenas kaingangs e por outros grupos proto-jê. Pesquisas arqueológicas publicadas pelo jornalista e repórter Thiago Santaella no ano de 2016, realizadas próximo de Lages revelaram a presença humana na região há cerca de 2.970 anos, muito antes da chegada dos europeus. Esses antigos habitantes construíam pequenas aldeias, plantavam feijão e mandioca, coletavam pinhão e realizavam rituais envolvendo bebidas fermentadas. Estima-se que milhares de indígenas habitavam a vasta floresta de araucárias que outrora cobria a região.
A habilidade arquitetônica dos proto-jê se manifestava especialmente na construção de casas subterrâneas, verdadeiros refúgios contra o frio dos rigorosos invernos. Essas estruturas, com até 15 metros de diâmetro e 4 metros de profundidade, eram construídas para abrigar várias famílias. Além da arquitetura, os proto-jê transmitiram de geração em geração o conhecimento sobre a confecção de objetos de cerâmica, taquaras e cipós.
No entanto, por volta do ano 1000 da Era Comum, um período de aquecimento global natural provocou a expansão da mata de araucárias e a consequente dispersão dos proto-jê. A partir desse processo, surgiram novas etnias, como os xoklengs, kaingangs, kimdá e ingain. Os xoklengs se estabeleceram no Vale do Rio Itajaí, enquanto os kaingangs se dispersaram por São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Os kimdá e os ingain, por sua vez, se misturaram a outros povos indígenas e perderam sua identidade étnica.
A história dos povos indígenas que habitaram a região de Curitibanos é um testemunho da rica diversidade cultural e do profundo conhecimento que esses povos possuíam sobre o ambiente natural. Suas tradições e conhecimentos continuam a influenciar a identidade cultural da região.
Quando os europeus chegaram a Santa Catarina, encontraram os carijós habitando a faixa litorânea. No interior do estado, os xoklengs ocupavam o vale do Rio Itajaí até as encostas da Serra Geral, enquanto os kaingangs predominavam no planalto e no oeste. Os guaranis também estavam presentes na parte oeste do estado, especialmente a partir do Rio do Peixe. Apesar de coexistirem no mesmo território, essas etnias apresentavam diferenças linguísticas e culturais. Os kaingangs, por exemplo, falavam línguas macro-jê e tinham uma profunda conexão com a terra, que consideravam sua mãe.
Com a chegada dos europeus e a colonização, os kaingangs e os guaranis sofreram um processo de aculturação e perda de suas identidades. Pejorativamente, eram frequentemente chamados de “bugres” pelos colonizadores. No entanto, como ressalta (Graciela Guarani, 2020), o termo “bugre” se referia originalmente a uma tribo específica, tendo sido generalizado de forma errônea. Chamar alguém de bugre seria o mesmo que chamar essa pessoa de selvagem. É uma palavra que sempre foi usada no sentido pejorativo.
Com relação ao uso da palavra “Bugre”, esse também é o entendimento do escritor e pesquisador Octacílio Schüler Sobrinho em seu livro “Taipas” (Schüler Sobrinho, 2000, p. 18)
Os kaingangs, antigos habitantes da região de Curitibanos, eram semi-nômades e praticavam uma agricultura de subsistência combinada com a caça, a pesca e a coleta. Adaptados à vida na mata de araucárias, eles utilizavam os recursos naturais de forma sustentável. A rica biodiversidade da região fornecia alimentos, materiais para construção e plantas medicinais, garantindo a sobrevivência da comunidade.
Os kaingangs escolhiam locais próximos de águas potáveis, como lagos, lajeados ou pequenos rios, para construir suas aldeias. As margens dos grandes rios como o Marombas, o Canoas, o Correntes, também foram utilizados para as construções de aldeias kaingangs. Abrigados pelos matos fechados, os chamados capões, encontravam proteção contra os ventos e o frio. Seguindo hábitos de higiene, banhavam-se em águas quentes aquecidas em suas panelas de cerâmica e aqueciam seus lares com fogueiras. Suas camas eram confeccionadas com folhas de palmeiras (folhas de butieiro) ou de xaxim, que eram expostas ao sol diariamente para eliminar bactérias, fungos e insetos.
A abundância de pinhão era fundamental para a alimentação dos kaingangs. Para conservá-lo, eles armazenavam os frutos em grandes cestos dentro d'água, protegendo-os de pragas. O pinhão era consumido cru, cozido ou assado, sendo um alimento essencial, especialmente no inverno. Eles eram hábeis em subir nas araucárias e derrubar as pinhas, dessa forma, ensinaram essa tradição aos não indígenas que posteriormente vieram a ocupar a região.
A vida dos kaingangs estava profundamente ligada à natureza. Eles utilizavam os recursos naturais de forma sustentável, demonstrando um profundo conhecimento sobre as plantas medicinais, a fauna e os ciclos naturais da região.
Os kaingangs possuíam também, conhecimentos dos recursos naturais disponíveis, alimentando-se de frutas, peixes, larvas, mel, pólen e diversas raízes. Embora houvesse recursos compartilhados entre as tribos, o pinhão era considerado um bem mais restrito, como aponta Mabilde (1983, p. 125-127). Os Kaingang delimitavam seus territórios com base na abundância de araucárias e estabeleciam regras sociais claras, punindo as transgressões. Contudo, a ideia de propriedade privada lhes era alheia; não possuíam a concepção de posse sobre a terra. Para eles, a terra era uma figura materna, responsável por prover tudo o que necessitavam para subsistir.
Até meados do século XVII, a região de Curitibanos era habitada por indígenas da etnia kaingangs. Em 1646, um grupo de colonizadores de origem mista, vindos do Paraguai, se estabeleceu na área (Schüler Sobrinho, 2000, p. 132). Esses primeiros habitantes não indígenas sobreviveram e aumentaram em número, preparando o terreno para a chegada dos bandeirantes em 1679. Assim, sabe-se que a primeira população não indígena a se estabelecer na região de Curitibanos veio do Paraguai, integrando-se e miscigenando-se com os povos nativos que já habitavam o local.
Os europeus, ao se depararem com a rica cultura indígena, aprenderam a confeccionar ferramentas simples e a aproveitar os recursos naturais da região. No entanto, a convivência entre os dois grupos foi marcada por conflitos e exploração. A tranquilidade dos kaingangs na região foi interrompida com a chegada dos primeiros bandeirantes, em busca de riquezas e mão de obra indígena. O primeiro registro dessa gente na região data de 1633, quando o bandeirante Raposo Tavares foi incumbido de penetrar pelo interior do sul do Brasil e abrir, por ele, uma picada que ligasse São Paulo ao Rio Grande do Sul, capturando indígenas pelo caminho. Depois, em 1679, o bandeirante Guilherme Dias Cortes, em busca de pedras preciosas e de metais de valor, visitou o planalto catarinense. Seu trabalho consistiu em anotar caminhos e informações sobre a população, relevo e rios existentes, o que foi muito útil anos depois com a chegada dos tropeiros.
É um erro perpetrado por antigos escritores locais que Guilherme Dias Cortes denominou a região onde hoje está localizado o município de Curitibanos de “Campo dos Coritybanos” ou “Campos Coritybanos”. Não se tem informações adicionais relacionadas a esses fatos, nem que respondam ao seguinte questionamento: por qual razão Cortes chamaria o lugar assim, a não ser a mais usual e tradicional, de que talvez fosse para homenagear a sua comitiva, que era proveniente de Corityba (Curitiba)? Isso foi o que os antigos escritores replicaram ao longo dos anos em seus escritos sobre o assunto relacionado ao nome do lugar. Entretanto, para Guilherme Dias Cortes, qualquer outro local no seu itinerário ou percurso poderia ser chamado “dos Coritybanos” ou simplesmente, “Coritybanos”. Aqui, há a necessidade de uma explicação adicional. É questionável a informação de que o bandeirante Guilherme Dias Cortes denominou uma região localizada no planalto catarinense de “Campo dos Coritybanos” ou “Campo Coritybanos”, simplesmente porque em 1679 o próprio município de Corityba (Curitiba) ainda não havia sido fundado. Tal fato só ocorreu em 29 de março de 1693, 14 anos após a incursão de Cortes para o Sul. E mais, quando o município que seria a capital paranaense foi fundado, teve o nome de “Nossa Senhora da Luz dos Pinhais”. O nome Corityba foi implantado somente em 1721 (42 anos após a visita do bandeirante Guilherme Dias Cortes ao planalto catarinense). A mudança do nome da vila de Nossa Senhora da Luz dos Pinhais e da rotina daquele pequeno povoado de acordo com as pesquisas do escritor Francisco Filipak (Filipak, 1999, p. 33) ocorreu a partir da visita do Ouvidor do Império, Raphael Pires Pardinho. Ele foi, provavelmente, a primeira autoridade do império português a preocupar-se com a preservação do meio ambiente daquela região urbana. Dessa forma, em 1679 não existia o município de Corityba. Se não existia nem a vila com esse nome, como foi que Guilherme Dias Cortes denominou uma região com o nome de “Campo dos Coritybanos” ou “Campos Coritybanos”?
Posteriormente, a partir da chegada dos bandeirantes no final do século XVII, a exploração e a colonização europeia tiveram um impacto significativo sobre os kaingangs, alterando seus modos de vida e levando-os à perda de seus territórios tradicionais. Tropeiros, bugreiros, jesuítas e colonizadores, motivados pela busca por riquezas e pela expansão do domínio português, promoveram a expulsão e o extermínio dos indígenas.
Em nome da fé cristã, os jesuítas espanhóis e portugueses impuseram seus valores e costumes aos indígenas, muitas vezes contradizendo suas crenças e tradições. Essa imposição cultural, aliada à exploração econômica, contribuiu para a desestruturação das sociedades indígenas e a perda de suas identidades.
Os Kaingangs: A História Não Contada
Como já citado anteriormente, os rios e riachos da região serrana do meio-oeste catarinense foram, no passado, indispensáveis, como importante apoio natural para a sobrevivência de milhares de indígenas da etnia kaingang. Ainda é possível localizar vestígios do estabelecimento dessas aldeias ao longo de algumas margens. Os rios não forneciam apenas alimento, como peixes, que eram pescados com habilidade excepcional não absorvida pelos colonizadores, mas também eram fundamentais na produção de ferramentas líticas (de pedra). Os indígenas usavam a correnteza das águas para alisar e polir pedras utilizadas como ferramentas cotidianas (mão de pilão, machadinhas, martelos, ponta de flechas, etc.). As águas dos rios, principalmente, o Canoas e o Marombas, também eram usadas para o armazenamento de alimentos, especialmente o pinhão, que era depositado em cestos de taquara, bambu ou cipó e mergulhados para evitar a contaminação por insetos, larvas ou fungos.
Os kaingangs demonstravam grande habilidade na pesca, utilizando uma armadilha chamada “pãri”. As aldeias ficavam próximas às corredeiras, onde faziam corredores de pedras dentro da água, forçando os peixes a passarem por eles (pelos corredores). Sabiam que os peixes costumavam subir e descer no leito do rio ou riacho. Em um ponto específico, fixavam um cesto de cipós trançado, com entrada facilitada para os peixes, mas com extrema dificuldade de saída. Esse sistema é conhecido em outros lugares do Brasil como “matapi” ou “puçá”. Uma vez que os peixes entravam na armadilha, bastava coletá-los para uma farta refeição. Havia uma infinidade de espécies de peixes nos rios da região de Curitibanos, garantindo uma abundância de alimentos.
Especificamente, o Rio Canoas é muito rico para a arqueologia. Perto da represa da Usina Hidrelétrica — UHE de São Roque, no interior do município de Vargem, Santa Catarina, foram catalogados mais de 80 sítios arqueológicos. Em alguns locais, ainda foi possível ver grandes buracos escavados pelos nativos para se abrigarem do frio e da chuva. Esses buracos, hoje cobertos de mato e quase imperceptíveis, foram medidos e catalogados recentemente por arqueólogos do Paraná. Esses cientistas ainda procuraram vestígios de material arqueológico dentro e ao redor dessas ruínas, como pedaços de pedras e cerâmica.
Além disso, os arqueólogos encontraram diversas pedrinhas negras compostas de minério de ferro às margens do Rio Canoas. Essas pedras eram utilizadas pelos indígenas como isqueiros, pois eles dominavam a técnica de produzir fogo, habilidade essencial para cozinhar alimentos e aquecimento. Quando friccionadas, essas pedras funcionavam como uma espécie de pederneira, gerando faíscas.
Os antigos habitantes do planalto serrano eram habilidosos na confecção de panelas de cerâmica com esmerado acabamento, características peculiares do povo kaingang. Essas cerâmicas eram construídas como recipientes ovais, sem alças, utilizados para cozinhar alimentos e eram geralmente enterradas para permanecerem imóveis. Não possuíam alças, mas, após o contato com bandeirantes e tropeiros no final do século XVII, os kaingangs começaram a imitar as panelas com fundo reto e alças. Assim, os arqueólogos conseguiram identificar se os artefatos de cerâmica encontrados eram de um período anterior ou posterior ao contato com pessoas não indígenas.
Na região de Curitibanos, existe uma planta milenar, o xaxim. Os indígenas utilizavam suas folhas para confeccionar camas em camadas e também para a cobertura das cabanas subterrâneas. O xaxim (dicksonia sellowiana), uma espécie de samambaia, está atualmente em processo de extinção. Os povos originários colocavam várias camadas dessas folhas até que, ao deitar sobre elas, se sentissem confortáveis. Após as noites geladas de inverno, era comum que tirassem essas folhas ao sol para evitar a ação de fungos e bactérias, prevenindo candidíase e micoses.
Os kaingangs eram bem higiênicos, tomavam banho diariamente, mais uma razão para fazerem suas aldeias perto de rios ou córregos. Fixavam suas aldeias próximas às águas potáveis e matos fechados, conhecidos como “capões”, que os abrigavam dos fortes ventos. A água protegida ficava um tanto quente e, ao entardecer, se banhavam. O fogo era aceso diariamente para aquecer o chão.
Assim, sabemos que os kaingangs tinham regras de higiene saudáveis e utilizavam os recursos naturais ao seu redor. Por causa da abundância do pinhão, havia disputas, especialmente por invasores que não respeitavam as delimitações exploratórias das aldeias. Alguns desses, vinham do Alto Vale do Rio Itajaí, como os indígenas da etnia xokleng, que subiam a Serra Geral para coletar pinhão em território kaingang.
Ao longo dos rios e riachos da região do meio-oeste catarinense, existem marcas nas partes rasas, geralmente em locais onde o leito é de rochas aparentes, com pequenas cavidades ou valetas. Os kaingangs utilizavam as pedras lascadas para esfregar continuamente sob a água corrente nessas valetas, alisando ou polindo suas ferramentas.
Tinham a habilidade de confeccionar vários tipos de flechas, inclusive, algumas com uma ponta chamada “virote”, utilizada para não matar os pássaros, somente para imobilizá-los, pois não queriam que os mesmos sujassem as suas preciosas penas com sangue.
Os europeus dependeram dos ensinamentos indígenas para confeccionar ferramentas rústicas. No período de convivência entre tropeiros, fazendeiros e nativos, havia atritos, mas também alguma amizade. Alguns tropeiros trocavam mercadorias com os nativos em troca de alimentos, principalmente animais caçados por eles.
Gradualmente, os indígenas foram exterminados e expulsos de suas terras, enfrentando provocações por parte dos tropeiros, bugreiros, jesuítas e colonizadores. Em nome de um deus cristão, e avalizados pela Igreja, os portugueses exploraram a escravidão e a completa aniquilação dos povos originários. Jesuítas, por favores às coroas espanhola e portuguesa, ensinavam e contradiziam ensinamentos, confundindo os nativos.
Os indígenas kaingangs, também chamados erroneamente e generalizados de botocudos ou bugres pelos colonizadores, eram os verdadeiros donos das terras do planalto catarinense. Sua história, no entanto, foi marcada pela violência, expropriação e marginalização perpetradas por bandeirantes, tropeiros, bugreiros, posseiros e fazendeiros que invadiram seus territórios. A partir da ótica dos kaingangs, é possível entender como eles foram os mais prejudicados nesse processo de colonização.
A vida dos kaingangs antes da invasão caracterizava-se por uma vida em harmonia com a natureza. Já a organização social era complexa, com regras de higiene, demarcação de territórios para exploração e respeito aos recursos naturais. A sua cultura estava profundamente ligada à mata das araucárias, que lhes fornecia alimento e abrigo. Os colonizadores desrespeitaram as demarcações territoriais indígenas, invadindo áreas sagradas e destruindo florestas para a futura criação de gado e a agricultura.
Os conflitos eram inevitáveis. Os kaingangs, que antes viviam em relativa paz, foram forçados a defender suas terras. No entanto, a superioridade bélica dos invasores e a falta de apoio do governo tornaram a resistência quase impossível. Muitos foram massacrados, escravizados ou expulsos para regiões inóspitas.
Apesar da violência, os kaingangs resistiram. Sua cultura e conhecimentos sobreviveram através de gerações, adaptando-se às circunstâncias impostas. Hoje, vestígios arqueológicos, como ferramentas de pedra e cerâmicas, testemunham as suas habilidades e conexões com a terra. Infelizmente, na região de Curitibanos não há atualmente aldeias ou remanescentes dos kaingangs, ao contrário de outras etnias que ocuparam o território catarinense, como os guaranis e os xoklengs, ainda existentes em alguns municípios do estado.
É essencial reconhecer que a história de Santa Catarina não começa com os colonizadores, mas sim, com os povos originários que habitavam a região há milênios. A invasão das suas terras não foi unicamente um ato de progresso, mas de destruição de culturas e vidas.
A narrativa tradicional muitas vezes omite o sofrimento dos kaingangs, retratando-os como meros obstáculos ao “desenvolvimento”. No entanto, ao olhar para sua história, vemos um povo que perdeu tudo: suas terras, sua liberdade e, em muitos casos, suas vidas, em nome de um projeto colonial que não os incluía.
Recontar essa história sob a ótica dos indígenas é um passo essencial para reparar as injustiças do passado e honrar a resistência dos verdadeiros donos das terras curitibanenses. Afinal, como dizem os próprios kaingangs: “A terra é nossa mãe, e sem ela, não somos nada.”
Desde o ano 1500 da Era Comum
Os povos indígenas que habitavam o sul do Brasil, como os kaingangs e os guaranis, construíram complexas redes de caminhos naturais, conhecidas apenas por eles. Muitas dessas etnias eram nômades, deslocando-se constantemente em busca de recursos. Alguns desses caminhos alcançavam milhares de quilômetros, ligando o oceano Atlântico ao Pacífico.
Conhecidos como “Caminho do Peabiru”, essas rotas foram utilizadas a partir do século XVI por diversos povos, incluindo guaranis, kaingangs, xetás, incas, espanhóis, portugueses, jesuítas e aventureiros. A palavra “Peabiru” tem origem tupi-guarani e significa “caminho gramado amassado”. Outrora, esses caminhos serviram não apenas para a comunicação entre as centenas de aldeias existentes, mas também para o comércio, a troca cultural e a realização de rituais sagrados. A importância histórica e cultural do “Caminho do Peabiru” é inegável, sendo um testemunho da engenhosidade e da complexidade das sociedades indígenas que habitavam a América do Sul.
Coube a um homem chamado Álvar Nuñez Cabeza de Vaca, em outubro de 1541, a façanha de percorrer pelo Caminho do Peabiru, partindo da Ilha de Santa Catarina até o norte, na entrada do Rio Itapocu, perto de Joinville. Depois, seguindo pelo mesmo caminho, até 14 de janeiro de 1542, quando chegaram às margens do grande Rio Iguaçu. Álvar Nuñez mandou então, homens até Asunción com mensagens aos oficiais que lá residiam, anunciando a sua chegada. Chegando em Asunción tomou posse como novo Governador e Capitão Geral do Adelantado do Río de La Plata. Desde essa época, o povoado de Asunción prosperou. Foi a principal capital do continente sul-americano.
O envolvimento dos guaranis em atritos ocorridos entre os portugueses e os espanhóis durou séculos. De acordo com Schüler Sobrinho, 2000, p. 132, após quase 150 anos depois que os portugueses chegaram no que seria o Brasil, utilizando-se de uma dessas trilhas ou caminhos no meio das matas, um grupo de portugueses miscigenados abandonou, em 1644, a cidade de Asunción, no Paraguai.
Esse grupo desceu o Rio Paraná e, em 1646, se instalou na região que compreende atualmente os territórios dos municípios de Campos Novos e Curitibanos. Se instalaram entre os meridianos 50°30’ e 51°10’, no paralelo 27°40. Essas coordenadas geográficas correspondem às áreas desses atuais municípios, mais especificamente o de Curitibanos.
Como viveram e do que viveram não se tem notícias. O que se sabe é que esses foram os primeiros homens de sangue “não indígena puro” que viveram na região. Sabe-se ainda que conseguiram sobreviver às intempéries da natureza, aumentando grandemente o número populacional. Portanto, quando os bandeirantes em busca de metais preciosos chegaram à região central do que seria o estado de Santa Catarina (Guilherme Dias Cortes, em 1679 e seu irmão, Zacarias Dias Cortes, em 1723), já havia, no local, povoamento de pessoas mestiças.
Uma informação bem importante e que, muitas vezes, foi negligenciada: quando António Correia Pinto de Macedo chegou na região para fundar a “Villa de Nossa Senhora dos Prazeres das Lajens”, encontrou, no local, em 1766, cerca de 5 mil habitantes (Schüler Sobrinho, 2000, p. 23, 26 e 146). Esses habitantes eram compostos de brancos miscigenados com indígenas que habitavam a região, provindos dos entrepostos dos antigos bandeirantes do século XVII, além dos kaingangs nativos. Essas pessoas viviam mais no estilo indígena do que no europeu.
Quando submetidos aos trabalhos forçados na construção da antiga vila de Lages, fugiram e se estabeleceram no meio-oeste catarinense, nas barrancas dos rios Marombas e do Peixe. Outros foram mais para o oeste, para os lugares onde hoje é a região de Xanxerê e Chapecó. Dessa forma, aprendemos que os primeiros conquistadores da região de Curitibanos, após a presença dos indígenas kaingangs, foram homens brancos miscigenados, provenientes de Assunção, capital do Paraguai. A formação da população local foi marcada pela miscigenação entre indígenas kaingangs e europeus, dando origem a uma sociedade mestiça. A fundação oficial da Vila de Nossa Senhora dos Prazeres das Lajens ocorreu em 22 de maio de 1771, consolidando o processo de ocupação da região, que havia se iniciado em 1766. Dessa forma, “em 1766 surgiu o povoado de Lajes, erguido à categoria de vila em 1774, graças ao tráfego de mercadorias” (Flores, 1998, p. 35).
Esse interior, antes considerado um “puro sertão”, tornou-se atrativo para a colonização. Conforme explicou Ransolin (2021), um dos primeiros núcleos populacionais de Santa Catarina foi a vila de Curitibanos, cujas atividades de origem remonta ao século XVII, com a chegada dos primeiros desbravadores. No entanto, foi no início do século XIX que o povoamento da região se intensificou.
A região que hoje é o território do município de Curitibanos passou por várias esferas ou domínios administrativos. Para se entender isso, precisamos voltar mais ao passado, logo depois que os portugueses chegaram na costa do continente sulamericano, em 1500. O processo de formação territorial do Sul do Brasil teve início em 1534, quando o sistema de capitanias hereditárias foi implantado pela Coroa Portuguesa.
Nesse cenário, as capitanias de São Vicente e Santana representaram as primeiras tentativas de organização administrativa na porção meridional da colônia (terras localizadas no sul, que viriam a ser os estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul). Inicialmente, a presença europeia concentrava-se mais ao norte, mas a geopolítica local mudou drasticamente em 1638. Naquele ano, os espanhóis abandonaram as terras situadas até o Rio Paraná, permitindo que toda a região fosse incorporada de forma definitiva aos domínios de Portugal.
A partir de meados do século XVII, a notícia sobre a existência de jazidas de prata impulsionou um povoamento efetivo por parte dos portugueses no litoral. A vila de Paranaguá surgiu em 1648, seguida pela fundação de São Francisco do Sul em 1658. Para garantir a governabilidade diante do fluxo migratório e da mineração, a Capitania de Paranaguá foi criada em 1656 ao sul do Rio Paranapanema. A expansão costeira avançou ainda mais rumo ao sul com o estabelecimento da vila de Laguna em 1676, consolidando a ocupação litorânea.
Em 1709 foi criada a Capitania de São Paulo e a ela foi incorporada a já existente Capitania de Paranaguá. Essa Capitania de São Paulo fazia divisa ao sul com o Rio Pelotas e a Capitania de D’el-Rey que em 1760 mudou de nome, chamando-se desde então, de Capitania do Rio Grande de São Pedro. No litoral da Capitania de São Paulo, foi criada em 1738, a Capitania de Santa Catarina.
A região oeste da Capitania de Santa Catarina, a partir da Serra Geral (o chamado planalto serrano, onde hoje fica a cidade de Lages e Curitibanos) deixou de pertencer à Capitania de São Paulo e foi incorporada à Capitania de Santa Catarina em 1820. A transferência oficial ocorreu em 9 de setembro de 1820, por meio de um alvará assinado pelo Rei Dom João VI. Esse documento desmembrou o termo da Vila de Lages da Capitania de São Paulo e o anexou à Capitania de Santa Catarina. A mudança teve como objetivo principal unificar o território catarinense e facilitar a administração da região através de um porto no litoral.
Pouco depois, em 1821, o sistema colonial ruiu e as antigas Capitanias ganharam o status de Províncias, subdivisão mantida pelo Império do Brasil, até a Proclamação da República em 1889.
A emancipação política da Província do Paraná, formalizada em 29 de agosto de 1853 pela Lei Imperial n.º 704, pôs fim a décadas de subordinação administrativa e econômica à Província de São Paulo. Nesse tempo as fronteiras ainda não estavam bem definidas, sendo requisitadas terras por duas ou até três entidades. No caso da região do meio-oeste do que viria a ser o estado de Santa Catarina, brigaram pelo território, a Argentina, o Paraná e Santa Catarina.
O Imperador Dom Pedro II enxergou no desmembramento da província do Paraná de São Paulo, uma oportunidade estratégica para fortalecer o controle geopolítico na região sul do Império e garantir a segurança das fronteiras platinas.
A instalação oficial da nova província ocorreu meses depois, em 19 de dezembro de 1853, com a posse do primeiro presidente provincial, Zacarias de Góis e Vasconcelos, na cidade de Curitiba, escolhida como a capital. Esse marco administrativo consolidou a identidade paranaense e impulsionou o desenvolvimento regional, abrindo caminhos para novos fluxos migratórios, a expansão das redes de transporte e a modernização da infraestrutura local que moldariam o futuro do atual Estado do Paraná.
Voltando ao século XVII e o que diz respeito ao território que viria a ser o município de Curitibanos. Em 1680, a Coroa Portuguesa estabeleceu a Colônia do Sacramento no Uruguai, criando um caminho litorâneo até Laguna para conectar a região ao centro da colônia. Devido à falta de pastagens e insegurança na rota litorânea, tornou-se necessária a abertura de um novo trajeto para o gado pelos campos do interior (Ransolin, 2021).
No final do século XVII, o ouro foi descoberto na região de Minas Gerais, mais especificamente onde surgiria a vila de Vila Rica (atual Ouro Preto). Para escoar a produção até o porto do Rio de Janeiro e embarcá-la em navios rumo a Portugal, os portugueses dependiam do transporte no lombo de mulas e burros. Esses animais eram criados em larga escala nos territórios que hoje correspondem ao Rio Grande do Sul, Uruguai e Argentina. A chegada das tropas até Vila Rica exigiu a abertura de um caminho pelo interior, já que os rios do litoral eram muito largos e profundos, impedindo que os animais os atravessassem a nado.
É atribuído ao Sargento-Mor Francisco de Souza Faria, apelidado de “o intrépido”, a abertura de um caminho ou rota que ligava o Morro dos Conventos, na cidade litorânea de Araranguá/SC, ao planalto catarinense (Caminho dos Conventos), bem como o Rio Grande do Sul aos pontos mais ao norte (Curitiba). Para isso, ele deveria seguir um caminho que permitisse cruzar pelo interior do sertão catarinense. Nessa época, entre os anos de 1728 e 1730, a região do meio-oeste do que viria a ser o estado de Santa Catarina integrava a Capitania de São Paulo.
Em 1730, oito anos antes da criação da Capitania de Santa Catarina, a região era composta por três cidades: São Francisco do Sul, Laguna e Desterro. Todas cidades litorâneas. A região central do que seria futuramente o Estado de Santa Catarina pertencia à Capitania de São Paulo. Lages ainda não existia.
A abertura do Caminho dos Conventos foi executado entre os anos de 1728 e 1730. Lessa (1995) escreveu que, entre 1731 e 1735, o tropeiro Cristóvão Pereira de Abreu passou pelo planalto catarinense com cerca de 3 mil animais, divididos em lotes, compostos de gado e 800 mulas lideradas por uma égua madrinha e 130 peões escalonados em diversas funções. Eles eram provenientes do território da Colônia do Sacramento, com destino às minas de Vila Rica, em Minas Gerais. Com a abertura do caminho das tropas, logo após 1730, Cristóvão Pereira de Abreu vendeu sua tropa a “peso de ouro”. Luz (1952, p. 27) confirma essa afirmação. Segundo Lemos (1983, p. 34), “provavelmente, foi nesse tempo que se firmou um lugar chamado de ‘Pouso dos coritybanos’, pois em 1737 (Lemos, 1983, p. 70), apareceu esse nome num mapa feito pelo Padre Diogo Soares”. Diz o documento: “Deste sítio (Serra Negra), passei aos campos chamados dos coritybanos… dos coritybanos, segui viagem e passando num campo alto, entrei num mato grosso chamado Espigão”. E também, foi nessa época, que a vasta extensão territorial desde a Serra do Espigão ao Rio Pelotas, foi batizado de “Campos dos Coritybanos”, ou simplesmente, “Campos Coritybanos”.
De acordo com o escritor caçadorense Nilson Thomé, o trajeto a que estas palavras se referem é no sentido sul-norte, pois há um outro documento que Francisco de Souza Faria, em 1728, comunicou à Câmara de Curitiba que passou pelas primeiras cabeceiras do Rio Uruguai (ou rios Pelotas e Canoas), por campos, “cortando várias restingas, e passando alguns córregos até sair pela ponta de outra serra a que chamarei Serra Negra [atual Serra dos Canoas]. Deste sítio passei ao campo chamado dos Curitibanos, caminhando sempre por campos em que há algumas restingas e capões de mato, e nestes não poucos córregos e rios. Dos Curitibanos, segui viagem, e passando num campo alto [Campo Alto hoje] entrei em um mato grosso chamado Espigão [Serra do Espigão], fiz nele não só estivas e algumas pontes, mas também um bom caminho aberto à força do braço (Thomé, 2012, p. 15-16).
Na mesma época, uma expedição de milicianos curitibanos, comandada pelo Capitão Manoel Rodrigues da Motta, conectou Curitiba aos Campos de Lages no sentido inverso ao de Francisco de Souza e Faria. Esse traçado ficava um pouco mais a oeste do original e não possui um registro oficial exato de sua trajetória (Thomé, 2012, p. 16). A conclusão a que se chega é que, por volta do ano de 1728, a região localizada entre a Serra do Espigão e os rios Pelotas e Uruguai recebeu a denominação de “Campos Curitibanos”.
Ainda utilizando os mesmos escritos da escritora curitibanense Zélia de Andrade Lemos (Lemos, 1983, p. 70): “(…) na época da fundação de Lages, mais de 30 anos após a abertura do caminho das tropas, ainda se usava para todos os campos ao norte do Rio Pelotas, a denominação de “Campos Coritybanos”.
É pertinente explicar aqui que o nome “Pouso dos Coritybanos” apareceu após o movimento tropeirista de 1730. É pertinente separar dois pontos cruciais e que confundem muitos estudiosos da história regional catarinense. Os campos coritybanos eram todos os campos ao norte do Rio Pelotas até as matas da Serra do Espigão. E após essa serra, em direção ao norte, por longos quilômetros, a região era conhecida como Sertão de Corityba ou Campos Gerais de Corityba. É errado pensar que somente onde posteriormente foi erigido o povoado de Coritybanos se chamava unicamente de “Campos Coritybanos”. Já o “Pouso dos Coritybanos” se deu por causa de uma feitoria (um armazém ou um entreposto comercial) erguida ao longo do caminho das tropas e que pertencia a pessoas que vieram da região de Corityba.
A palavra “pouso” significa um lugar de descanso, de repouso, de pernoite, de estadia. Os antigos tropeiros tinham lugares específicos e adequados para acomodar os rebanhos pelo tempo suficiente para uma recomposição de forças, até que pudessem prosseguir viagem. “O tropeiro foi decisivo para a formação dos estados do sul, ao estimular a criação de centenas de cidades em cada pouso ao longo do caminho” (Ribeiro, 2006, p. 19) e (Oliveira, 2025, p. 291).
Zélia de Andrade Lemos escreveu em seu livro Curitibanos na história do Contestado, 1983, página 69 que “o nome de Curitibanos, como é do conhecimento público, deriva do de Curitiba; quanto à cidade, originou-se de um “pouso” ou lugar de descanso da Estrada das Tropas”.
Havia obstáculos naturais que impediam as viagens dos tropeiros, por exemplo, uma sequência de dias chuvosos, quando os rios enchiam e tornavam suas travessias impossíveis. Era necessário esperar o nível das águas baixar; somente assim poderiam prosseguir. Enquanto isso, pernoitavam ou pousavam nesses lugares pré-escolhidos.
Dois caminhos foram importantes para que houvesse a ligação comercial entre o Sul e o Norte, o Caminho dos Conventos e o Caminho das Tropas, também denominado de Caminho de Viamão. Segundo o escritor caçadorense Nilson Thomé (2012, p. 26):
O Caminho de Viamão, também designado como "Estrada Real", a mais utilizada, partia de Viamão, atravessava os campos de Vacaria, Lages, Correia Pinto, Curitibanos, Santa Cecília, Papanduva, Monte Castelo, Mafra, Rio Negro, Campo do Tenente, Lapa, Palmeira, Ponta Grossa, Castro, Piraí do Sul, Jaguariaíva, Sengés, Itararé, alcançando Sorocaba.
A história de Curitibanos está intrinsecamente ligada à história da vizinha cidade de Lages, de onde teve o seu território desmembrado. Lemos (1983, p. 50) escreveu que, em 1770, após duas frustradas tentativas, a freguesia de Nossa Senhora dos Prazeres das Lajens foi fundada na sua atual localização. António Correia Pinto de Macedo foi o fundador. Em 1766, ele tinha autorização do Governador da Capitania de São Paulo, Dom Luís António. Em troca do seu serviço ao império, seria condecorado com o “Hábito de Cristo” (Comenda). A convocação dos novos moradores deu-se segundo o costume da época, quando um novo povoado era criado, por um bando (toque de caixas).
Ainda, nesta época de 1766, a vila de Lages estava situada nos “Campos Coritybanos”. O próprio Conselheiro Mafra (Mafra, 1899, p. 148) informou que a fundação de Lages foi nos “Campos Coritybanos”, à margem direita do Rio Pelotas.
Como já visto, todo o território entre Corityba e o Rio Pelotas era denominado ‘Sertão de Corityba’ e ‘Campos Coritybanos’. Em 1777, vieram os paulistas e os coritybanos (moradores de Corityba), com o regimento militar, com a finalidade de vigiar a fronteira e estabelecer feitorias ao longo do Caminho das Tropas.
Entre os homens que compunham a comitiva de António Correia Pinto de Macedo, estava o Capitão António Jozé Pereyra. A escritora curitibanense Zélia de Andrade Lemos afirma em seus escritos que um dos feitores nos Campos Coritybanos foi o Capitão António Jozé Pereyra, primeiro dono da então “Fazenda dos Coritybanos” (Fazenda dos Campos Coritybanos). Esse nome se deve ao próprio nome dos campos, incluindo aí os campos da atual Coxilha Rica. Não há informações precisas do local exato de onde ficava essa feitoria. Ninguém, atualmente, pode afirmar com convicção, ou avalizar essa informação sem uma margem para o erro, simplesmente, porque não existe nenhum documento conhecido até o presente momento em que este texto é escrito que nos mostre o local exato dessa feitoria ou fazenda. A Fazenda dos Coritybanos poderia ser em qualquer lugar entre o Rio Pelotas e a Serra do Espigão, sendo mais provável que fosse próxima de Lages, uma vez que o proprietário tinha uma função administrativa política na Câmara de Lages.
O proprietário da Fazenda dos Coritybanos, no dia 27 de setembro de 1773, presidiu a Sessão da Câmara de Lages. De acordo com Lemos (1983, p. 35), ele viveu na sua fazenda e administrou a feitoria até 1779, quando faleceu. Após a morte do fundador e feitor, a fazenda foi vendida pelos herdeiros a João Xavier de Souza, também membro da Câmara de Lages, que em 1783 residiu com sua família na ‘Fazenda dos Coritybanos’. Nesse ano, ocorreu uma invasão de indígenas ao imóvel. Ransolin (2021) explicou que os indígenas que viviam na região do planalto catarinense mantinham constantes conflitos entre as etnias e atacavam costumeiramente os condutores de tropas, chamados de tropeiros. Esse triste acontecimento na ‘Fazenda dos Coritybanos’ pode ter causado desgosto e abandono do local por parte da família Xavier de Souza. Com o passar dos anos, ‘correu a afirmação’ entre os estudiosos da história de que todos os moradores foram mortos pelos invasores. O local foi então completamente abandonado.
Por algumas décadas, não se teve nenhum registro de um local chamado Coritybanos, com exceção de um trecho de uma carta referenciada no livro da escritora curitibanense Zélia de Andrade Lemos (1983, p. 72) que diz: “dos cachorros aos coritibanos — 2 léguas, pequenas restingas de mato e campos espaçosos, onde houveram já estâncias…” (O roteiro de 1797). Cachorros, refere-se ao Rio dos Cachorros.
Aqui, há necessidade de um argumento ainda não explorado pelos historiadores do Planalto Catarinense. Se adotarmos a tese da escritora Zélia, partindo do sul em direção ao norte, teremos a seguinte situação: cada légua equivale a aproximadamente 6 quilômetros. Arredondando e fixando esse valor em 6 km, se traçarmos uma linha a partir da margem do Rio dos Cachorros em direção ao norte, seguindo o caminho das tropas até o suposto local dos restos das estâncias mencionados pela autora, que hipoteticamente seria a sede da “Fazenda dos Coritybanos”, esse local estaria a cerca de 12 quilômetros de distância para o norte. Esse ponto estaria ao sul ou sudeste do atual perímetro urbano de Curitibanos.
No entanto, medições realizadas com os equipamentos e ferramentas disponíveis atualmente indicam que, em linha reta, a distância entre as margens do Rio dos Cachorros e o perímetro urbano de Curitibanos varia entre 15 e 20 quilômetros, dependendo dos pontos de partida e chegada. Além disso, é importante ressaltar que a escritora deduziu, sem provas convincentes, que a expressão “onde houveram já estâncias” se refere às ruínas da antiga sede da Fazenda dos Curitibanos, o que é questionável, uma vez que não há comprovação dessa tese.
Já o professor Walter Dacs de Lages (1942), em um artigo publicado no Guia Serrano de 1942, diz ter localizado a sede da antiga “Fazenda dos Coritybanos” a cerca de 12,5 léguas de Lages, o que equivale a aproximadamente 75 quilômetros ao norte. Essa estimativa indica que a fazenda se situava ao sul do que hoje é o centro urbano de Curitibanos. Com os argumentos elencados, deduzimos que a tal Fazenda dos Curitibanos não tem nada a ver com o nome do povoado que viria a ter o nome de Curitibanos e que seria criado a cerca de 40 anos depois da passagem do Capitão António Jozé Pereyra pelos Campos Coritybanos. E também, cerca de 70 anos depois da abertura do Caminho das Tropas.
Zélia de Andrade Lemos (1983, p. 35) informa que entre Rio Negro e Lages foram designados postos de abastecimento. Em cada posto foi designado um feitor com a finalidade de adquirir e fornecer sal e mantimentos para o sustento das tropas que por ali passavam. Esse sal e esses mantimentos eram disponibilizados especificamente para o apoio e o pleno funcionamento do tropeirismo, com a promessa de ressarcimento pelo Rei de Portugal, coisa que não acontecia na sua plenitude. Alguns feitores de postos receberam muito tardiamente essa conta e outros nunca receberam o que venderam, causando enormes transtornos financeiros aos primeiros moradores dos pousos.
Diante do panorama exposto, evidencia-se a real origem do nome do município de Curitibanos. Com base em análises técnicas de fragmentos documentais preservados no acervo do Museu Histórico Antonio Granemann de Souza e em fontes antigas, constata-se que a denominação surgiu a partir de 1730, com a consolidação do Caminho das Tropas. O termo origina-se de uma feitoria e entreposto comercial estabelecido na região por dois irmãos de sobrenome Dias, oriundos de Curitiba, local que ficou popularmente conhecido como “Pouso dos Curitibanos”. Há vários relatos escritos relacionados à existência dessa feitoria ao lado do Caminho das Tropas.
São conhecidos, pelo menos, uma dezena de registros dando informações de uma feitoria ou de um armazém de abastecimento pertencente a dois irmãos de sobrenome “Dias” na época dos primeiros tropeiros que utilizavam o convencional Caminho das Tropas. Citarei alguns aqui para o devido embasamento:
O primeiro escrito foi de autoria do curitibanense Dinarte Pereira Brasil, nascido em 27 de janeiro de 1911. Foi escritor e teve como profissão, repórter ou jornalista, pois escrevia para diversos periódicos e revistas. Numa nota na revista “Blumenau em Cadernos”, Dinarte escreveu sobre a fundação do que viria a ser o povoado de Curitibanos (Brasil, 1971, p. 7):
Por volta do século XVIII, dois irmãos, oriundos de Curitiba, aqui se fixaram definitivamente, atraídos naturalmente, pelas grandes e fartas pastagens, ou quiçá mesmo pelo simples espírito de aventura. É certo que esses pioneiros, aqui estabelecidos com um pequeno negócio, tornaram-se conhecidos de todos os tropeiros que demandavam de São Paulo ao Rio Grande e vice-versa. Surgiu daí a denominação do local. A cogitação comum, naquele tempo, entre os tropeiros sobre onde iriam sestear, onde pousar, era logo respondida: “nos Curitibanos”, pensando na casa dos irmãos vindos de Curitiba. Essa é a origem do nome da cidade e município.
No livro “A História de Curitibanos por Maria Baptista Nercolini”, uma espécie de diário manuscrito feito por ela e transcrito pela professora municipal Bernardina Maria Barbosa, na página 2 encontramos (Nercolini, 1974, p. 2):
Desses pontos de repouso, o único que prosperou foi Curitibanos. Sabe-se que dois irmãos da família Dias, oriundos do Estado do Paraná, se estabeleceram no Pouso de Curitibanos com uma casa de comércio para abastecer os tropeiros que por aqui passavam. O nome dado a Curitibanos foi originado pelos filhos de Curitiba, pelos dois irmãos Dias que, aqui se estabeleceram e com o correr dos anos, ficou o nome de Curitibanos.
No mesmo livro, a professora Bernardina Maria Barbosa transcreveu uma espécie de complementação sobre o assunto (Nercolini, 1974, p. 142). O texto é do escritor e historiador Cyro Ehlke datado de 18 de fevereiro de 1971:
Mais uma vez, têm-se visto cronistas ou estudiosos da história catarinense oferecerem versões, ou trazerem subsídios para explicar o porquê de o atual município catarinense de Curitibanos ter esse nome. Curitibanos faz lembrar Curitiba, e, assim, sabido que no passado houve trânsito de alimárias (animais de carga) desde o Rio Grande do Sul até Sorocaba, em São Paulo. Nada mais fácil do que supor que a origem desse nome se devesse a tropeiros de Curitiba (ou curitibanos), que ali se houvessem estabelecido, advindo como consequência, o nome do lugar. De fato, quem primeiro o sugeriu foi o ilustre cônego Luiz Castanho de Almeida (Aluizio de Almeida) em alentado trabalho sobre o tropeirismo do Sul nas feiras de Sorocaba, São Paulo, e que se fez contido no volume 2.º dos “Anais do X Congresso Brasileiro de Geografia”, editado em 1952.
Esse escritor e historiador Cyro Ehlke foi, segundo (Lemos, 1983, p. 70), o primeiro historiador do planalto catarinense. Não se pode descartar a hipótese da existência desses irmãos que se estabeleceram na região e que podem ser o verdadeiro motivo da existência do nome “Curitibanos”. Nos arquivos do Museu Histórico Antonio Granemann de Souza, na pasta n.º 2, página 26, dos recortes da escritora Zélia de Andrade Lemos, encontramos uma correspondência datado de 20 de junho de 1980 do ex-secretário da antiga prefeitura municipal, senhor Antonio Signorelli, informando que:
Em atenção ao seu pedido, tendo em vista recente divulgação feita nesta cidade através de folhetos referente aos primeiros povoadores de Curitibanos, cuja procedência (Curitiba) deu nome ao município. Posso informar que durante o tempo que exerci os cargos de Agente de Estatística e Secretário da Prefeitura local, jamais encontrei no pequeno arquivo daquela repartição documento ou qualquer publicação que afirmasse chamar-se “Dias” o primeiro ou os primeiros moradores da pousada de tropeiros onde hoje está localizada a sede municipal, mesmo porque, é oportuno lembrar, na Prefeitura, no período que ali trabalhei, não existiu documento algum relacionado com a povoação de Curitibanos, pois como é sabido, o arquivo foi totalmente destruído pelo incêndio provocado pelos fanáticos em 1914, (…). Se existir nos arquivos municipais algum elemento que comprove aquela afirmação — referente aos “irmãos Dias” — só poderá ter dado entrada ali após a minha saída em 1967.
A correspondência menciona uma discussão na época sobre os irmãos Dias, como prováveis e supostos primeiros moradores de Curitibanos. No entanto, a origem desse sobrenome e seu papel na formação do povoado ainda são desconhecidos, como provas fundamentais para uma afirmação concreta. Como respondeu o antigo secretário: “o arquivo foi totalmente destruído”, o que pode, certamente, ter apagado informações preciosas.
Nessa época de 1980, o gestor municipal era o prefeito Wilmar Ortigari, que havia mandado imprimir e distribuir um folheto de oito páginas com o título na capa de “Conheça Curitibanos”. No material havia, numa das páginas, um texto com o título de “Origem e Colonização”. Nesse texto havia um parágrafo que dizia:
Dois irmãos da família Dias, vindos de Curitiba, aqui escolheram para se estabelecer com uma casa de comércio à qual passou a servir de ponto para os tropeiros e viajantes, que além de repousarem, podiam prover-se de alimentos e materiais para as suas viagens.
No Museu Thiago de Castro de Lages, há informações em forma de texto que informam que em 1747, ainda antes da fundação do povoado da vila de Lages, todos os campos do lado da margem direita do Rio Pelotas eram chamados de Campos Curitibanos. Nessa época, já havia intenso movimento de tropeirismo no caminho das tropas. Se esses irmãos Dias existiram, devem ter se estabelecido nesse período na região, antes mesmo da fundação de Lages.
O renomado historiador catarinense, Antonio Pichetti, escreveu no dia 14 de fevereiro de 1971, na página 6 do Jornal O Estado: “Outro exemplo é Curitibanos, fundada por dois irmãos tropeiros, procedentes de Curitiba”. Maria Nercolini considerou essa informação muito importante, pois Antonio Pichetti foi advogado, duas vezes deputado estadual e Secretário da Agricultura de Santa Catarina. De acordo com os escritos encontrados no Museu, Pichetti foi um grande estudioso da história planaltina (Nercolini, 1971 p. 142). Outro questionamento que merece ser discutido e argumentado é sobre a contração da preposição “de” com o pronome demonstrativo “o” no plural (dos). No caso, “dos” Coritybanos. Esse vocábulo merece a atenção: por que “dos”? Quem seriam esses Coritybanos? Não podemos ignorar que poderiam ser os dois irmãos oriundos do Paraná.
Entretanto, era normal, antes do século XX, usar essa preposição para designar lugares, como exemplo: Campo das Vacarias, Campos de Palmas, Campos dos Curitibanos, Nossa Senhora dos Prazeres das Lajens, e assim por diante.
Nilson Thomé, professor, historiador e jornalista, também, renomadíssimo escritor da cidade de Caçador, editor do antigo Jornal do Planalto que circulava em Curitibanos no início da década de 1970 escreveu num texto publicado no Suplemento Especial sobre o histórico da fundação de Curitibanos de 11 de junho de 1971, na página 2:
Conforme dados da Enciclopédia dos municípios no ano de 1633, Antônio Raposo Tavares andou aqui no município à procura de índios Guaranis, não havendo registros, que o mesmo tivesse conseguido aprisionar tais silvícolas. Daqui seguiu para o Oeste catarinense e paranaense ao encalço de tais selvagens. Com o correr dos anos, os tropeiros foram trazendo algumas famílias para começar o povoamento do pouso das fazendas dos Curitibanos, como também no de Corisco, hoje Santa Cecília, às margens do Rio Correntes, e outro na margem do Rio Ponte Alta, onde hoje está localizada a cidade do mesmo nome. Desses pontos de repouso o único que prosperou foi Curitibanos, sabe-se que dois Irmãos da Família Dias, oriundos do Estado do Paraná se estabeleceram no pouso de Curitibanos com uma casa de comércio para abastecer os tropeiros que por aqui passavam. O nome dado a Curitibanos foi originado pelos filhos de Curitiba, pelos dois irmãos Dias que aqui se estabeleceram e com o correr dos anos, ficou com o nome de Curitibanos.
Hipoteticamente, ficaria mais lógico, cômodo e de fácil entendimento, se um tropeiro, ao conversar com outro, dissesse: “vamos pernoitar ou acampar no armazém ou na feitoria ou ainda, no pouso dos (irmãos) Coritybanos.
O escritor Walter Fernando Piazza, escreveu que depois do surgimento das fazendas e depois da fundação de Lages nos Campos Coritybanos, os “pousos” e as invernadas foram definidas para o uso dos fazendeiros e tropeiros (Piazza, 1983, p. 176).
A partir, pois da irradiação dessas fazendas, utilizando-se do “caminho do sul” para as atividades sociais e econômicas, aqueles povoadores vão se disseminando. Surgem os “pousos de tropas” e as pastagens para invernadas, surge assim, Curitibanos. Na procura de outros caminhos, na busca de novas pastagens saem outros intimoratos povoadores (pessoas sem medo). Semeiam-se, assim, os núcleos de São Joaquim e Campos Novos.
Numa edição do antigo jornal Correio dos Campos de Curitibanos, em 1952, há registros extraídos do “Álbum do Estado de Santa Catarina de 1907, onde diz que “os primeiros habitantes tivessem sido em sua maioria moradores da antiga povoação de Curitiba, hoje capital do Paraná, ficou esse nome pertencendo à povoação primitiva e é hoje vila e Município de Curitibanos”. Este artigo está digitalizado na Pasta de documentos da escritora Zélia de Andrade Lemos n.º 1, no Museu Histórico Antonio Granemann de Souza.
Fica claro que pessoas oriundas da antiga Corityba, a partir de 1730, se estabeleceram ao longo do Caminho das Tropas, mais especificamente onde mais tarde foi erigido o antigo povoado, depois vila e Município de Curitibanos.
Com a construção do caminho das tropas que ligava o Sul do Brasil à região central, a partir de 1730, levas de homens e animais começaram a transitar nos dois sentidos. Sentido sul-norte com animais, principalmente mulas e sentido norte-sul, com alimentos e diversas mercadorias, transportadas em comitivas. Cabral (1970, p. 164) explicou que o povoado de Curitibanos:
no planalto, originou-se de um pouso de tropeiros, no caminho de Lages para Sorocaba, onde dois irmãos, naturais de Curitiba, se instalaram, pouso que passou a ser conhecido como “dos Curitibanos”.
Com relação a esse pouso, que também poderia ser chamado de feitoria ou entreposto, há informações de que no início do século XIX ele tenha se transformado de um simples pouso em um povoado. Essa mudança ocorreu com a construção sucessiva de um aglomerado de casebres e casas, consolidando-se como um ponto de parada e fixação para tropeiros e moradores da região.
Os tropeiros (...) escolheram esse local como o “Pouso” principal, justamente por ser um ponto de convergência dos caminhos que vinham do “maior celeiro da América do Sul em gado bovino, equino e muar”. Aos arredores havia ótimos campos de pastagem natural, uma profusão de capões repletos de pinheiros e abundante aguada. Assim, os fazendeiros que tropeavam do Rio Grande do Sul, encontravam bastante largueza para dispor seu gado e coordenar seus negócios sem precipitação (Philippi, 2000, p. 139).
O professor, diretor de escola pública, pesquisador e historiador Jacir Brunetto, em seu livro “À sombra das araucárias” escreveu na página 57 que “outras cidades surgiram e se desenvolveram em locais de antigos entrepostos da Estrada das Tropas, e se tornaram centros de criadores de gado. É o caso de Lages, Curitibanos e Campos Novos, no Planalto Catarinense.” E na página 141 do mesmo livro está escrito:
Curitibanos teve origem de um pouso de tropeiros, junto à Rota dos Tropeiros que passava por Lages e se dirigia para a Feira de Sorocaba, na Província de São Paulo. Neste pouso se instalaram dois irmãos de Curitiba. Por isso, o pouso passou a chamar-se pouso dos “Curitibanos”, tornando-se Curitibanos a povoação que surgiu e que se tornou distrito de Lages, em 1864, e se converteu em município em 1869.
Jacir Brunetto durante toda a sua vida comprou e colecionou exemplares antigos e raros da história regional do sul do Brasil. Era apaixonado pelas histórias das revoltas populares e do tropeirismo. Deixou Santa Catarina e se estabeleceu no Mato Grosso do Sul, onde, durante a sua vida de pesquisas adquiriu das mais diversas formas livros antigos que pudessem ajudá-lo no seu conhecimento.
De 1730 até 1800, as informações sobre a região de Curitibanos são escassas, limitando-se principalmente aos relatos sobre a fundação da vila de Lages, a construção e posterior desaparecimento de uma fazenda nos Campos Curitibanos, que provavelmente, (contrariando a maioria dos historiadores locais) não tinha nada a ver com o local que seria construída a sede do município, a instalação de uma feitoria por dois irmãos originários de Curitiba e o estabelecimento de alguns fazendeiros vindos do interior de São Paulo para explorar o arrebanhamento de gado.
Como o escritor Euclides José Philippi explicou, a região era rica em recursos naturais. As araucárias forneciam pinhão, que servia de alimento para os tropeiros, enquanto a abundância de mel silvestre e a variedade de caça, como veados, tatetos, porcos-do-mato, pacas, capivaras, cotias e tatus, garantiam sustento. A diversidade de aves também era notável. O solo fértil, aliado à fartura de pastagens, água em abundância e um clima equilibrado, com sol e chuva ao longo do ano, tornavam a área propícia para a vida. Além disso, a disponibilidade de madeiras para construção contribuía para que a região fosse vista como um verdadeiro paraíso (Philippi, 2000, p. 140).
Havia muitas terras disponíveis, consideradas "sem dono" (já que os indígenas, para a Coroa Portuguesa não eram reconhecidos como proprietários), o que atraía colonizadores. Nos campos, já existia uma grande quantidade de gado classificado posteriormente como exemplares da raça “franqueiro” e do que hoje se chama “crioulo lageano” ou no feminino “raça crioula-lageana”, possivelmente introduzidos na região por indígenas, portugueses ou por espanhóis que cruzavam o Rio Pelotas. Cavalos também já circulavam soltos pelas campanhas, talvez abandonados pelos mesmos agentes responsáveis pela travessia do gado bovino conforme já citados, ou por antigas expedições como a de Guilherme Dias Cortes, em 1679, ou a de Francisco de Souza e Faria, por volta de 1729.
Esse cenário paradisíaco chamou a atenção dos tropeiros que desciam ao Rio Grande do Sul em busca de animais para comercializar no centro do país. Com a abundância de terras devolutas, novos moradores foram gradualmente se estabelecendo além da estrada principal, que cortava a região de norte a sul. A partir de Curitibanos, outras estradas se ramificavam em todas as direções, transformando o local em um ponto de encontro para tropeiros. Enquanto descansavam, eles negociavam animais, e alguns até retornavam ao Rio Grande para formar novas tropas.
As explorações realizadas por Atanagildo Pinto Martins em 1815, na região do Rio Chapecó, e a abertura da “Vereda das Missões”, em 1816, que o levou à descoberta dos “Campos Novos”, foram fundamentais para estabelecer novos roteiros destinados ao tropeirismo e ao povoamento dessas regiões. Essas iniciativas permitiram a expansão das rotas comerciais e a ocupação de áreas até então pouco conhecidas, contribuindo significativamente para o desenvolvimento do sul do Brasil. Com essas explorações foram descobertas novas passagens sobre o Rio Uruguai, uma dessas, ficou conhecida como “Passo do Pontão”.
A descoberta do Passo do Pontão originou um novo caminho que se encontrava com o Caminho dos Tropeiros ou Caminho das Tropas que passava pelo novo povoado de Curitibanos foram essenciais para a expansão territorial, o desenvolvimento econômico e a integração regional do sul do Brasil, com eventos marcantes que se estenderam no século XIX e XX.
A data exata da descoberta do Passo do Pontão não está claramente registrada em documentos históricos, mas sabe-se que ele começou a ganhar relevância durante o século XIX, com a consolidação do Caminho dos Tropeiros e a expansão da pecuária no sul do Brasil. O Passo do Pontão, localizado a alguns metros abaixo da foz do Rio Canoas, formando assim, a nascente do Rio Uruguai, tornou-se um ponto estratégico para a travessia de tropas e mercadorias, provenientes do Rio Grande do Sul com destino às regiões centrais do país.
É provável que o local tenha sido descoberto e utilizado inicialmente por indígenas ou por exploradores espanhóis que circulavam pela região antes da ocupação efetiva pelos portugueses. No entanto, sua importância histórica foi consolidada a partir do início do século XIX, quando os tropeiros passaram a utilizar a rota regularmente para o transporte de gado e outros produtos, burlando o registro no Passo de Santa Vitória, onde tinham que pagar tributos.
Portanto, embora não haja uma data específica de “descoberta”, o Passo do Pontão ganhou importante destaque, tornando-se um marco importante na história da ocupação e do desenvolvimento econômico do sul do Brasil. Consequentemente, o povoado que viria a ser o município de Curitibanos ganhou com essa passagem e caminho que vinha do Oeste. O caminho adentrava no centro urbano da pequena vila de Curitibanos pelo que hoje é o bairro São Francisco, Avenida Frei Rogério, Praça Nereu Ramos, Rua Ferreira de Souza em direção ao Caminho das Tropas que vinha da vila de Lages, tornando possível o desenvolvimento da região.
Após fixar-se com sua família, em 1824, no local que mais tarde se tornaria o município de Lagoa Vermelha, no Rio Grande do Sul, o Capitão do Exército Imperial José Ferreira Bueno esteve na região de Curitibanos em 1829. Sua presença foi decisiva para atrair outros colonizadores. Dotado de liderança natural e grande capacidade de organização, tornou-se uma figura respeitada na comunidade, em um período em que o interior ainda era pouco explorado e escassamente habitado.
Diante da vastidão de terras devolutas do Império e da facilidade de ocupação, muitos outros colonos chegaram, dedicando-se principalmente à criação de gado, atividade que se consolidaria como a base econômica da região por longo tempo. A escolha do local não foi aleatória: a abundância de pastagens naturais e a proximidade das rotas tropeiras favoreciam o comércio e o transporte de animais.
Além da pecuária, os novos moradores também investiram na agricultura de subsistência, cultivando milho, feijão e mandioca, alimentos indispensáveis para a sobrevivência das famílias que se estabeleciam na região.
Com o tempo, a região transformou-se em um pequeno núcleo populacional, onde as famílias trocavam produtos, compartilhavam conhecimentos e celebravam festas religiosas. Esse embrião de comunidade foi o primeiro passo para a formação do povoado que mais tarde se tornaria Curitibanos. A contribuição de José Ferreira Bueno para o desenvolvimento da região é lembrada até hoje como um dos pilares da história local. Ele é reconhecido como o fundador de Lagoa Vermelha no Rio Grande do Sul e, para alguns historiadores, mesmo sem uma comprovação documental, também como o pioneiro no estabelecimento do povoado de Curitibanos em Santa Catarina.
Nenhuma outra informação em forma de documento impresso foi encontrada sobre o local chamado Curitibanos até o ano de 1829, quando, segundo Nascimento (1993, p. 80):
Em 1829, o Capitão do Exército Imperial, José Ferreira Bueno, expediu um Ofício à Câmara de Lages, solicitando um padre para catequizar 29 indígenas, que manifestaram o desejo de permanecer no novo povoado dos Coritybanos fundado no início do século XIX. A escritora e pesquisadora Zélia de Andrade Lemos escreveu que “atualmente, mais um dado de grande valor histórico para nós, veio juntar-se: a primeira notícia do Povoado dos Curitibanos”.
As informações a que se referiu, foram colhidas do Arquivo Nacional pelo pesquisador catarinense Walter Fernando Piazza. Tais informações revelaram que o lugar teria tido o seu começo, mais ou menos no ano de 1800, visto existir um pequeno aglomerado de casas em 1829, citado no documento, onde diz que a “povoação é nova”. Ransolin (2021) confirma, em seus estudos, que no início do século, “novas levas de pioneiros buscaram se estabelecer no local”. Nesse período já havia um amplo sistema de colonização no interior do país, bem como a construção de várias rotas tropeiras.
Lemos (1983, p. 75) afirma que as primeiras posses foram registradas no cartório de Lages. O local tornou-se um ponto obrigatório para as passagens e paradas das comitivas. Inicialmente, devido à existência de campos nativos e de capões propícios para invernadas, esses tropeiros juntaram algum dinheiro e requisitaram extensões de terras devolutas.
Conclusão
A trajetória histórica de Curitibanos revela-se profundamente entrelaçada com a formação territorial, cultural e social do Sul do Brasil, remontando muito antes da chegada dos europeus. Ao analisar a origem do seu nome, compreendemos que ele não é apenas uma designação geográfica, mas um registro vivo das transformações pelas quais a região passou ao longo dos séculos. Tudo começa com os povos proto-jê e, posteriormente, com os Kaingangs, verdadeiros senhores dessas terras, que ali viveram por milênios, desenvolvendo uma relação de respeito e conhecimento profundo com a natureza, especialmente com a floresta de araucárias que dominava a paisagem. Suas marcas, na arquitetura, nos costumes, na língua e no uso sustentável dos recursos, permanecem como as raízes mais antigas da identidade local, ainda que muitas vezes tenham sido silenciadas pela história oficial.
Com o processo de colonização, a região foi palco de disputas territoriais, trocas culturais e profundas transformações. A chegada de povos miscigenados vindos do Paraguai, seguida pela atuação dos bandeirantes e, principalmente, pelo florescimento do tropeirismo, remodelou o espaço e deu origem à denominação que hoje conhecemos. Diferente de versões antigas que ligavam o nome a supostos batismos de exploradores, as pesquisas e documentos aqui analisados confirmam que o povoado chamado “Curitibanos” surgiu, a partir de 1730, ligado à consolidação do Caminho das Tropas. O termo refere-se ao famoso “Pouso dos Curitibanos”, um entreposto e ponto de descanso estabelecido por indivíduos vindos de Curitiba, que se tornaram referência obrigatória para o comércio e o trânsito entre o Sul e o Sudeste do país. É essa ligação direta com os viajantes e com a antiga denominação de moradores da capital paranaense que deu origem, gradativamente, ao nome do município.
Além de esclarecer a etimologia, essa investigação nos mostra como Curitibanos se formou como um ponto estratégico de convergência de rotas, de culturas e de pessoas, indígenas, tropeiros, fazendeiros e imigrantes, que, em meio a conflitos e convivências, construíram a sociedade atual. A história do nome é, portanto, também a história de uma terra que serviu de passagem, de pouso e de morada, carregando nas suas sílabas a memória dos campos, das estradas e dos povos que por ali passaram e se estabeleceram. Reconhecer essa origem é fundamental para valorizar a verdadeira história do município: uma história que começa nos saberes ancestrais dos povos originários, passa pela dinâmica econômica do século XVIII e se consolida como parte essencial da formação do território catarinense, preservando até hoje a herança e a memória de todos aqueles que ajudaram a construir essa identidade.
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Antonio Carlos Popinhaki foi membro, em Curitibanos, do Conselho de Políticas Culturais na área de História e Memória Cultural, Arquivos, Bibliotecas, Pesquisa e Documentação entre os anos de 2016 a 2025; Bacharel em Economia Agroindustrial pela Universidade do Contestado. Graduado em Licenciatura em História pelo Centro Universitário UniFaveni. Pós-graduado em Auditoria e Perícia Contábil pela Universidade Católica Dom Bosco. — Professor, escritor, historiador e pesquisador de história. Colunista do Portal A Semana de Curitibanos.