segunda-feira, 3 de março de 2025

Desafio do Norte, uma jornada de sobrevivência e superação

Texto de Antonio Carlos Popinhaki


A vida tem dessas reviravoltas que, por mais que tentemos planejar, sempre nos surpreendem. Em 1986, eu estava em um momento de transição, tanto profissional quanto pessoal. Após dois anos trabalhando para a fábrica de cabos de ferramentas do meu primo como comprador de madeiras em Curitibanos, Santa Catarina, fui surpreendido por uma proposta que mudaria completamente o rumo da minha vida. No início daquele ano, em uma reunião no porão do escritório da empresa, meu primo me informou que a empresa havia adquirido um terreno em Belém do Pará, no norte do Brasil. A ideia era montar uma unidade fabril na região, aproveitando a abundância de matéria-prima e a infraestrutura portuária local, que reduziria os custos com exportações. Fui convidado a participar do projeto como administrador da nova unidade.

Aceitei o desafio, mas mal sabia eu que, além de lidar com as complexidades de montar uma fábrica do zero, teria que enfrentar uma série de obstáculos que testariam minha capacidade de sobrevivência e minha habilidade de tomar decisões sob pressão. Afinal de contas, eu estava com 22 anos, reconheço que não tinha a experiência necessária para tão grande responsabilidade.

Antes de minha partida para Belém, meu primo havia contratado um consultor administrativo chamado Victor, um gaúcho alto e forte, que aparentava ser competente e dedicado, pois tinha uma boa lábia. Ele foi enviado para o Pará com a missão de iniciar os trabalhos de terraplanagem e construção do barracão que abrigaria a fábrica. O terreno era um pedaço de floresta com árvores e matas em um Distrito Industrial recém-construído na época pela prefeitura de Belém. Victor também foi encarregado de montar um acampamento provisório para abrigar os trabalhadores. No entanto, logo após sua chegada ao norte, ele começou a demonstrar um comportamento estranho, muito diferente da pessoa que havia apresentado em Santa Catarina.

Fui dirigindo um Fusca que me foi disponibilizado para a compra de madeiras no sul do Brasil. Parti de Curitibanos na manhã do dia 2 de março de 1986, por volta das 10 horas, e parei para pernoitar na cidade de Ourinhos, no interior de São Paulo. Naquele primeiro dia, percorri quase 700 quilômetros. No dia seguinte, dirigi um pouco mais de 1000 quilômetros, passando a noite em Rialma, uma pequena cidade de Goiás. No terceiro dia, saí de Rialma ainda de madrugada e conduzi quase 1300 quilômetros, parando para descansar em Açailândia, no Maranhão. No quarto e último dia de viagem, cobri os 530 quilômetros restantes, fazendo uma parada pela manhã em um local chamado Dom Eliseu. Lá, um madeireiro de Curitibanos havia estabelecido uma empresa, uma espécie de laminadora de toras.

Quando finalmente cheguei a Belém, após uma exaustiva viagem de quatro dias dirigindo um Fusca, fui recebido por Victor e seus três ajudantes. Eram jovens, inexperientes, mas aparentemente dedicados. No entanto, algo no ar parecia fora do lugar. Victor, que eu mal conhecia, parecia me encarar com desconfiança, como se minha presença fosse uma ameaça aos seus hipotéticos e por mim ignorados planos.

O que eu não sabia era que Victor havia arquitetado um plano para me eliminar. Ele via minha chegada como uma interferência em seus objetivos, que nunca ficaram claros para mim. Seja por inveja, ambição ou simplesmente por uma mente perturbada, ele decidiu que eu não deveria assumir o controle da administração da obra.

Seu primeiro plano foi usar a natureza ao nosso redor como arma. Ele instruiu seus ajudantes a procurar cobras e outros animais peçonhentos para colocá-los em minha rede enquanto eu dormia. A ideia era que minha morte parecesse um acidente. No entanto, por ironia do destino, nenhum animal perigoso foi encontrado naquele dia.

Frustrado, Victor partiu para o "plano B". Ele ordenou que seus capangas cortassem as cordas da rede onde eu dormiria, deixando-as frágeis o suficiente para que eu caísse sobre um facão afiado, estrategicamente posicionado abaixo. Felizmente, o plano falhou. Eu era magro e leve na época, e as cordas aguentaram meu peso. Na manhã seguinte, o facão havia desaparecido, e eu continuei minha vida sem saber do perigo que havia escapado.

Victor, no entanto, não desistiu. Dias depois, seus capangas me convidaram para uma pescaria no Rio Maguari. A princípio, aceitei por curiosidade, já que não conhecia os costumes de pesca da região. No entanto, logo percebi que algo estava errado. Eles haviam trazido uma pedra enorme amarrada a uma corda, que supostamente serviria como âncora para a canoa. O verdadeiro plano, no entanto, era amarrar a pedra em mim e me afundar no rio.

Felizmente, os jovens capangas não tiveram coragem de executar o plano. Eram rapazes de boa índole, apesar de influenciados por Victor. Eles se recusaram a seguir suas ordens e, ao invés de me matar, simplesmente voltamos para o acampamento. Victor, ao nos ver retornar, ficou visivelmente frustrado.

Com o tempo, fui descobrindo as tramoias de Victor. Ele era um homem ambicioso e manipulador, mas suas artimanhas não passaram despercebidas. Assumi o controle total da administração da obra e, após uma série de incidentes, incluindo uma viagem perigosa a Mosqueiro que quase terminou em tragédia, decidi demiti-lo. A última vez que o vi foi na rodoviária de Belém, onde o deixei para pegar um ônibus de volta a São Paulo. Nunca mais tive notícias dele.

Essa experiência no norte do Brasil foi um verdadeiro teste de sobrevivência. Aprendi que, em situações extremas, a capacidade de adaptação e a clareza mental são essenciais. Além disso, entendi que nem sempre podemos confiar nas aparências. Victor, que parecia um profissional competente, revelou-se uma pessoa perigosa e manipuladora.

A construção da fábrica em Belém foi concluída, e a empresa prosperou. No entanto, as memórias daqueles dias turbulentos nunca foram esquecidas. A natureza exuberante do Pará, o igarapé Piraíba e as pessoas que conheci ao longo do caminho deixaram marcas profundas em minha vida. Foi uma jornada de desafios, mas também de aprendizado e superação.


Nenhum comentário:

Postar um comentário