quinta-feira, 13 de março de 2025

Pescarias!

Texto de Antonio Carlos Popinhaki


Escrevo hoje sobre um tempo de nostalgias, um tempo que não retornará mais, mas que permanece vívido em minha mente como um tesouro precioso. Um tempo em que o clima, as matas e os rios eram diferentes, mais puros, mais generosos. Pedro Popinhaki, meu pai, era um apaixonado pela pesca. Talvez essa paixão tenha brotado de sua infância e juventude, vividas às margens do Rio Marombas, onde os peixes eram abundantes e as águas, límpidas, livres da poluição que hoje assola nossos rios. A pesca não era apenas um passatempo para ele; era uma conexão profunda com a natureza e uma forma de transmitir valores e tradições aos filhos. Desde cedo, ele nos levava consigo, mesmo quando éramos pequenos, para compartilhar desses momentos à beira dos rios.

Meu pai era um pescador habilidoso, dominava diversas técnicas e artefatos: espinhéis, redes, tarrafas, caniços e linhas de mão. Ele nos ensinava com paciência e orgulho, transformando cada pescaria em uma aula de vida. Nos fins de semana, especialmente no verão, era comum partirmos juntos para os rios da região de Curitibanos. O Rio Marombas, o Rio Canoas, o Rio Correntes e um rio menor, próximo a Lebon Régis, o Timbó, eram nossos destinos preferidos. Às vezes, passávamos a noite acampados à beira desses rios, sob o céu estrelado, ouvindo o som das águas e dos animais da mata.

Posso afirmar, sem hesitação, que minha infância e adolescência foram marcadas por momentos mágicos, graças a essas aventuras proporcionadas por meu pai. Mesmo tendo me afastado da casa paterna desde meados dos anos 1980, por razões de trabalho, jamais esquecerei as pescarias em família, os cheiros da mata, o frescor das águas e a alegria de estar juntos. Essas memórias são como fotografias que guardo no coração, sempre nítidas, sempre emocionantes.

Pedro Popinhaki era um homem corajoso e generoso. Ele nunca hesitou em nos levar em suas pescarias, mesmo sabendo que cuidar de crianças pequenas durante a atividade poderia reduzir o rendimento da pesca. Para ele, o importante não era a quantidade de peixes que trazíamos para casa, mas sim o tempo que passávamos juntos, aprendendo e nos divertindo. Ele nunca demonstrou medo ou receio de que algo ruim pudesse acontecer conosco. Pelo contrário, estava sempre radiante por ter a companhia dos filhos, compartilhando conosco sua paixão pela natureza e pela pesca.

Uma das memórias mais vívidas que guardo ocorreu por volta de 1973. Na época, tínhamos um automóvel modelo “Aero Willys Rabo de Peixe”, que meu pai havia adquirido em troca de uma antiga camionete “Rural Willys”. Naquele dia, ele convidou um vizinho, Frederico Paes de Farias, para uma pescaria na foz do Rio das Pedras, e eu fui o único filho a acompanhá-los. O local, que chamávamos de “barra”, era o ponto onde o Rio das Pedras deságua no Rio Marombas. Era um lugar especial, cercado por uma natureza exuberante, que parecia ainda mais grandiosa aos olhos de uma criança de dez anos.

Chegamos ao local e, para minha surpresa, a canoa que precisávamos estava do outro lado do rio. O senhor José Cavalcante, amigo e colega de pescaria do meu pai, foi o escolhido para atravessar o rio a nado e buscá-la. Lembro-me de que ele teve que se despir, e nós nos afastamos para não vê-lo nu. Em pouco tempo, a canoa estava do nosso lado, pronta para a pescaria. Enquanto os adultos se preparavam, eu, cansado de correr e brincar sob as árvores, acabei adormecendo no porta-malas do Aero Willys, acomodado por cobertas que meu pai arrumou com cuidado. Hoje, atribuo esse sono repentino ao fato de termos saído de Curitibanos ainda de madrugada, comigo ainda sonolento pela euforia da pescaria.

Quando acordei, estava sozinho. O silêncio do local, apenas interrompido pelo barulho das águas e dos pássaros, me assustou. Gritei por meu pai, mas ninguém respondeu. Peguei um facão que encontrei por perto e comecei a caminhar pela margem do rio, tentando não me perder de vista das águas. Após alguns minutos de caminhada e gritos desesperados, ouvi vozes ao longe. Era meu pai e seus companheiros, que voltavam na canoa. Eles não gostaram de me ver sozinho, com um facão na mão, mas logo o susto passou, e tudo voltou ao normal. Hoje, reconheço o perigo que representava para uma criança carregar um objeto cortante, mas na época, eu não tinha noção disso.

Aquela pescaria foi um sucesso. Eles conseguiram peixes suficientes para dividir entre três famílias, e a alegria de todos era palpável. Voltamos muitas outras vezes àquele local, sempre com meus irmãos João e Pedro. Quando éramos pequenos, não participávamos ativamente da pescaria, pois não sabíamos nadar e éramos proibidos de nos aproximar demais da água. Ficávamos no acampamento, observando os adultos, brincando e explorando o local à nossa maneira. Certa vez, encontrei um carrinho de plástico enterrado na areia da margem do rio, um mistério que nunca foi solucionado. Como ele foi parar ali? Talvez tenha sido trazido pela correnteza durante uma cheia.

Desde cedo, estávamos familiarizados com os instrumentos de pesca: redes, tarrafas, linhas, chumbos e anzóis de diversos tipos. Tínhamos até uma canoa de cedro, feita por um senhor chamado Araújo, que trabalhava como afiador de serras na serraria do tio Antonio Popinhak. Lembro-me da primeira vez que a usamos, na Fazenda da Cadeia. A madeira estava tão seca que a canoa encheu de água, deixando-nos um tanto decepcionados. Mas, com o tempo, as frestas se fecharam, e ela se tornou uma companheira fiel em nossas pescarias.

Nem todas as pescarias eram bem-sucedidas. Certa vez, meu pai levou espinhéis, mas não conseguimos pescar quase nada. No dia seguinte, não havia peixes suficientes para dividir. Mas isso não nos desanimou. Voltamos ao local pouco tempo depois, desta vez com redes e barracas improvisadas. Fizemos uma grande fogueira para nos aquecer à noite e compartilhamos histórias e risadas. Naquela ocasião, pescamos uma carpa enorme, a maior que já vi em minha vida. Ela era tão forte que meu pai e seus amigos tiveram que cortar a rede para libertá-la. Foi uma pescaria memorável, repleta de emoções e aprendizados.

Entre os peixes capturados, havia muitos cascudos. Lembro-me de uma “burrada” que cometi, quando, aos 15 anos, tentei lavar um cascudo no rio e acabei soltando-o. Levei uma bronca, mas a abundância de peixes pescados naquele dia fez com que o incidente fosse logo esquecido. Hoje, rio ao lembrar desse episódio, mas na época, fiquei bastante constrangido.

São muitas as histórias que guardo dessas pescarias em família e com os amigos do meu pai. Cada uma delas é um capítulo de um livro que poderia ser escrito, repleto de ensinamentos, aventuras e laços fortalecidos. Hoje, meu pai e seus companheiros de pescaria já se foram, mas suas memórias permanecem vivas em mim. Encerro aqui esses escritos, com um sentimento de gratidão por tudo o que vivi ao lado de Pedro Popinhaki, um homem que me ensinou a amar a natureza, a valorizar os momentos simples e a nunca desistir, mesmo quando os peixes parecem escassos.



Referência para o texto:


POPINHAKI, Antonio Carlos. Popiwniak. Blumenau: Gráfica e Editora 3 de Maio, 2015. 173 p.

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