quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Lembrança de uma aventura com as cédulas de 100 cruzados



Texto de Antonio Carlos Popinhaki

Esta história ocorreu no ano de 1986, logo após o lançamento do Plano Cruzado, quando eu estava no norte do Brasil, mais precisamente na cidade de Breves na Ilha do Marajó. Naquela época, a maior cédula padrão emitida especificamente na nova moeda era a de 100 cruzados, com a efígie do ex-presidente Juscelino Kubitschek.

Eu havia sido incumbido de comprar 60 metros cúbicos de madeira serrada da espécie marupá, uma variedade que existe, ou pelo menos existia, em grande abundância na região central e oeste da ilha. No interior da cidade de Breves, encontrei uma serraria de propriedade de pessoas de ideologia evangélica. Como eles não me conheciam, não aceitavam cheque e nem ordem de pagamento bancário, o que em outras partes do Brasil, era muito comum. Mas não no interior do município de Breves. Dessa forma, o acerto foi categórico: eu deveria pagar o valor de 80.000 cruzados estritamente em dinheiro vivo.

Tábua de Marupá, madeira de cor clara

Passei a acompanhar o processo na serraria. Para serrar os 60 metros cúbicos, levou mais ou menos dois dias. Lembro-me de ver as toras chegando em jangadas, puxadas por barcos vindos do interior da floresta. Num certo momento, quando uma das toras subiu a rampa para adentrar a serra fita, algo inédito e incrível aconteceu: a tora tinha um pedaço oco e, dentro dele, havia um peixe. Ao serrar a madeira, a máquina cortou o peixe ao meio. Eu nunca tinha visto nada parecido em toda a minha vida.

Para isso, recebi uma ordem de pagamento pela Caixa Econômica Federal enviada diretamente de Curitibanos para a agência de Breves, onde eu tinha aberto uma conta especificamente para receber dinheiro para pagar os fornecedores de madeira serrada. Saquei o montante integral em cédulas de 100 cruzados. Na prática, o banco me entregou exatamente 80 maços de 1.000 cruzados cada, sendo que cada maço continha 10 cédulas. No total, eram 800 notas. Embora pareça muito dinheiro, essa quantia ocupava um volume físico irrelevante dentro da minha maleta, não chamando a atenção das pessoas. Como o dinheiro era para o pagamento da madeira e era exatamente o valor negociado, conferi todos os maços com muita calma e atenção, pois se houvesse alguma falta, eu teria que repor do meu bolso. Depois de um tempo, com o valor conferido, deixei a agência bancária em direção ao Hotel Avenida, local que eu estava hospedado.

Com o pagamento garantido, depois de tudo pronto, restava o transporte. Para levar aqueles 60 metros cúbicos de marupá até a empresa onde eu trabalhava, em Icoaraci, distrito de Belém do Pará, foi necessário contratar um barco. Deu um trabalho imenso tanto para carregar toda aquela madeira no Marajó quanto para descarregá-la no destino final, concluindo uma jornada marcante e cheia de peculiaridades.

Coincidentemente ou não, o barco que contratei tinha uma tripulação com o mesmo perfil dos proprietários da serraria: eram todos evangélicos pertencentes à Igreja Assembleia de Deus — “todos crentes”, como diziam. O horário da partida estava marcado para as 4 horas da manhã em um dos trapiches na orla de Breves. A ideia era chegarmos cedo à serraria, que distava cerca de duas horas dali, para carregar a madeira aproveitando ao máximo a luz do dia na navegação até Belém.

A orla da cidade de Breves localiza-se às margens do Rio Parauaú, um curso de água profundo e navegável que integra o Estreito de Breves, conectando o Rio Amazonas ao Rio Pará e à Baía do Marajó. Caracterizada por uma forte dinâmica portuária e estrutura urbana voltada para as águas do rio.

Naquela véspera, porém, acabei quebrando o protocolo. Fiquei conversando no bar do hotel com alguns homens que também estavam hospedados ali e passamos da conta, bebendo uísque até tarde. Só fui para o quarto depois da 1 hora da madrugada e me joguei na cama completamente bêbado pelo álcool ingerido. Como dormiria muito pouco, combinei para um táxi me buscar perto das 4 horas e avisei ao funcionário do hotel para me acordar de madrugada.

Pelas 3 horas, o funcionário me chamou: o taxista já estava me procurando para me levar até a orla do rio. Acordei completamente tonto, sofrendo os efeitos da grande quantidade de uísque e do curtíssimo tempo de sono. No reflexo, peguei a maleta com o dinheiro, mas, no meio daquela tontura, cometi um erro crucial: esqueci de separar o dinheiro da corrida e deixei tudo guardado junto lá dentro.

Ao chegarmos ao destino, o motorista informou o valor do trajeto. Enfiei as mãos nos bolsos e me dei conta de que não tinha nenhum trocado comigo; todo o dinheiro para o pagamento da madeira e para as minhas despesas de viagem estava trancado na maleta. O medo e o receio me travaram na hora, pois eu sabia do perigo que era abrir uma maleta cheia de dinheiro vivo dentro de um táxi na madrugada.

Tomado pelo nervosismo e sem prestar atenção, cometi um segundo deslize: abri a maleta de cabeça para baixo. No mesmo instante, o fecho cedeu e os maços de 100 cruzados despencaram, espalhando-se pelo assoalho do veículo. Em pânico, pedi de forma enfática para o motorista sair do carro, querendo privacidade e segurança para recolher os maços que haviam se desfeito inteiros debaixo dos bancos e dos tapetes.

Estava completamente escuro e o cenário era de pura loucura, mas foi um verdadeiro milagre não ter sumido nenhuma cédula. Angustiado, fiquei muito preocupado se o valor exato da madeira ainda estaria ali ou se algo teria se perdido no interior do veículo. Felizmente, após um tempo de contagem minuciosa, pude constatar que o montante estava intacto e nada havia sido perdido. Com o susto superado, paguei o motorista e, finalmente, prossegui em direção ao trapiche para embarcar com os tripulantes evangélicos.

Na serraria, lembro que tivemos dificuldades para carregar os 60 metros cúbicos de marupá por ser uma madeira muito pesada quando recém-serrada. Se o transporte fosse via terrestre, para transportar todo esse volume seriam necessárias três carretas, já que o peso total dos 60 metros cúbicos da madeira verde chega a 67,2 toneladas.

Não havia pessoas disponíveis para o carregamento. O proprietário da serraria disse que o valor contratado cobria apenas a madeira e a serragem; o carregamento, a mão de obra, o frete e o serviço de desocupar o trapiche corriam por minha conta. Mas onde arrumar homens no meio da floresta? Não foi fácil convencer o dono da serraria a disponibilizar alguns empregados e, mesmo assim, ele cobrou à parte pelo serviço. Levamos quase o dia todo para carregar aquela madeira no barco. No final do dia, eu já não estava me sentindo bem. A ressaca tinha virado uma forte dor de cabeça, a falta de sono me castigava e a intensidade de tudo o que aconteceu estava me deixando muito mal fisicamente. Chegamos a Breves no fim da tarde para abastecer. Tive que adiantar metade do frete, pois o proprietário da embarcação alegou que, sem esse dinheiro, não conseguiria comprar o combustível para a viagem até Belém.

Enquanto o barco era abastecido, tirei esta fotografia

Pernoitamos no barco naquela noite. Armei minha rede e consegui dormir até a madrugada seguinte, quando partimos em direção a Belém, capital do Pará. A viagem começou tranquila, bem no clarear do dia. No entanto, logo após o almoço, estourou uma discussão entre o proprietário do barco e um dos tripulantes. Eu estava deitado na rede quando fui acordado por uma gritaria generalizada, com ofensas disparadas de lado a lado. Entrei no bate-boca para tentar acalmar os ânimos, lembrando a todos que, como evangélicos, deveriam dar o exemplo e se amar como irmãos. Não deram a mínima atenção às minhas palavras. Tomado pela raiva, o marinheiro que estava no timão jogou a embarcação em direção a um barranco. Um dos tripulantes, completamente alterado, desembarcou ali mesmo e se recusava a voltar para cumprir suas funções. Não foi nada fácil acalmar aqueles “fiéis membros da Assembleia de Deus” para que pudéssemos, finalmente, prosseguir viagem com destino a Belém.

Chegamos ao início da grande Baía do Guajará, um lugar que se revelava sombrio e perigoso. Muitas embarcações já estavam ancoradas ali, aguardando a madrugada para iniciar a travessia. Naquela região, o amanhecer costuma trazer ventos fortes que agitam as águas, criando ondas perigosas para qualquer barco. Além disso, a navegação depende totalmente do regime das marés. Como a baía sofre influência direta do Oceano Atlântico, ela esconde extensos bancos de areia com trechos de apenas dois metros de profundidade. Com o nosso barco de madeira pesado, carregado com toneladas de marupá verde, precisávamos cruzar exatamente na maré cheia para não encalhar. Navegar contra a maré vazante exigiria demais do motor e consumiria um combustível precioso. Por isso, os mestres preferem esperar o momento em que a maré começa a subir para ganhar viagem, usando a força da água para empurrar a embarcação em direção aos portos de Belém.

Viajamos por mais um dia inteiro até que, no meio da tarde, finalmente chegamos a Icoaraci. Adentramos o Rio Maguari e logo alcançamos o Igarapé Piraíba, localizado na zona norte de Belém. Naquele ano de 1986, a região ainda abrigava comunidades tradicionais e ribeirinhas que, historicamente, tiravam o seu sustento da pesca e da coleta no rio. No entanto, o cenário já estava mudando drasticamente com a chegada das grandes plantas industriais e serrarias no Distrito Industrial. O igarapé começava a sofrer fortes impactos de poluição, transformando para sempre a rotina e a vida pacata dos moradores locais.

Na metade da tarde, começamos a descarregar o barco com seus 60 metros cúbicos de marupá. O trabalho foi contínuo e passou da meia noite, com lâmpadas improvisadas por causa da escuridão da noite. Após a descarga, o barco permaneceu nos fundos da empresa até as 10 horas da manhã, quando o restante do frete foi pago ao proprietário.

Naquele momento, estava prestes a acontecer um erro gravíssimo, não previsto por pura falta de conhecimento e incapacidade de gestão. A madeira foi gradeada ao sol no sistema de tesouras, pois a previsão era de que o calor do Norte secaria as tábuas de forma fácil e rápida, preparando-as para um breve beneficiamento. Acontece que, uns vinte ou trinta dias após minha partida para Breves, recebi a amarga notícia de que a madeira estava toda bichada, tomada por perfurações de brocas. O grande erro foi o fato de aquelas tábuas recém-serradas terem sido gradeadas sem antes passar por um banho de veneno imunizante, um tratamento químico essencial para proteger uma espécie tão vulnerável.

Na dinâmica da floresta tropical e na indústria madeireira, a durabilidade de uma tora depende de uma guerra silenciosa travada contra três grandes agentes de degradação: os cupins, os besouros-broca e os fungos. Embora o público leigo costume confundir tudo como “uma coisa só”, cada um desses organismos possui hábitos biológicos totalmente diferentes, atacando em estágios e condições específicas. No caso do marupá verde, os primeiros invasores são as brocas, que na verdade são pequenos besouros das famílias Lyctidae e Bostrichidae, e não os cupins, como muitos pensam.

Atraídos pelo cheiro da seiva fresca e pelo alto teor de amido e umidade do alburno, os besouros adultos pousam na superfície exposta da madeira ainda na serraria e depositam seus ovos nos poros abertos do corte. Quando as larvas eclodem, começam a cavar galerias internas para se alimentar, passando meses escondidas. O sinal clássico de sua presença destruidora não é o inseto em si, mas sim um resíduo finíssimo acumulado abaixo das tábuas, semelhante a um pó de giz ou talco, empurrado para fora conforme a larva abre caminho pela fibra.

Paralelamente a esse ataque, o marupá verde enfrenta o pesadelo dos fungos manchadores, responsáveis pelo fenômeno da “mancha-azul”. Esses fungos microscópicos encontram o ambiente perfeito no clima da Amazônia, onde a alta umidade da madeira fresca se combina ao calor abafado dos pátios. Embora não tirem a resistência mecânica da madeira, eles se alimentam do açúcar celular e liberam pigmentos escuros que tingem as fibras profundamente. Uma carga clara como o marupá perde quase todo o seu valor de mercado em questão de dias por conta desse defeito estético permanente.

Os cupins, por outro lado, entram em cena em um momento diferente, pois a maioria das espécies prefere o material que já passou pelo processo de secagem. Sendo insetos sociais que vivem em colônias organizadas, seu ataque é massivo e cooperativo. Ao contrário das larvas isoladas das brocas, os cupins devoram o interior da peça deixando a superfície externa intacta, como uma casca fina que faz a estrutura desabar sem aviso prévio.

Compreender a diferença entre essas pragas era, e ainda é, vital para a sobrevivência de qualquer operação na Amazônia. Enquanto os cupins exigem tratamentos de longo prazo em estruturas já secas, o combate às brocas e aos fungos manchadores exige velocidade imediata. O erro da nossa operação foi ignorar essa corrida contra o tempo, deixando de aplicar o banho químico preservativo logo após o desdobro na serra, selando o destino daquela carga preciosa.

Esse erro aconteceu por pura ignorância e desconhecimento da madeira e do próprio ambiente amazônico. Foi uma verdadeira tragédia. O marupá, que deveria ser beneficiado como um produto de primeira qualidade e exportado para mercados exigentes de fino acabamento, transformou-se em madeira de segunda, destinada ao mercado interno com um valor bem inferior ao desejado. No final, todos apontaram o dedo para mim, acusando-me de ter comprado madeira bichada. Tentei rebater, argumentando que eu mesmo havia acompanhado todo o processo de serragem e testemunhado que as toras eram novas e saudáveis no pátio. De nada adiantou; a ignorância e a falta de conhecimento de todos nós taparam os olhos da razão. Foi assim, com esse gosto amargo de injustiça, que encerrei essa parte das minhas aventuras no Norte do Brasil no ano de 1986 deixando para outra pessoa comprar madeiras, enquanto fui desempenhar atividades burocráticas na empresa. 


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