A presente história ocorreu na década de 1950 na Fazenda Estância Nova, propriedade do senhor Alfredo Goetten Granemann. Naqueles idos tempos, morava na fazenda, de favor, um homem chamado José Leite de Almeida, conhecido por todos como “Juca Jeremias”. Se alguém fosse chamá-lo pelo nome completo, ele preferia que usasse apenas “José Almeida”, pois não gostava de seu segundo nome, Leite. Ele tinha um irmão chamado Francisco Leite de Almeida, conhecido por todos como “Chico Jeremias”. O apelido vinha do nome do pai deles, Jeremias Leite de Almeida, e assim os filhos ficaram conhecidos como “Jeremias” como se fosse um segundo nome.
Esse Juca Jeremias ajudava a família do senhor Alfredo nas lidas do campo e nos afazeres domésticos da fazenda, cuja atividade principal era a criação de animais. A família Goetten o acolheu porque precisavam de uma pessoa de confiança para as várias tarefas da fazenda. Juca era uma pessoa de plena confiança, considerado quase como um membro da família.
Numa determinada época, Juca Jeremias adquiriu a muito custo, fruto do seu trabalho, um belo cavalo avermelhado, um animal excelente, dócil e muito bonito. O cavalo ficava junto aos demais equinos da família Goetten, num cercado de arame. Certo dia, ladrões cortaram o arame da cerca e roubaram o cavalo vermelho de seu Juca. Ele procurou em vários lugares, não achando, deu queixa na polícia, registrando a ocorrência.
Depois de procurar por toda a redondeza e locais conhecidos de Curitibanos, pediu um cavalo emprestado ao senhor Alfredo para expandir suas buscas. Percorreu um raio de mais de 100 quilômetros à procura do seu animal avermelhado. Não o encontrando, resolveu consultar uma adivinha, uma “responsadora”, uma mulher famosa por prever o futuro.
Com a resposta que recebeu, resolveu voltar à Estância Nova para prosseguir com sua vida junto à família de Alfredo.
— Achou o cavalo? — perguntou Alfredo, na ocasião do retorno de Juca.
— Não achei, infelizmente... não achei. Mas não vou procurar mais. Me disseram que o cavalo vai aparecer aqui na mangueira da fazenda e que, mais cedo ou mais tarde, eu o terei de volta — respondeu Juca Jeremias.
— Quem te disse essa besteira? Já faz tempo que o cavalo sumiu; nem sabemos se ainda está vivo e, se está, por onde andará!?
— Uma responsadora me disse. Vou acreditar nas palavras dela. Já percorri até Campos Novos e arredores e não achei meu lindo cavalo.
O tempo passou. Certa ocasião, apareceu na região de Curitibanos um tal senhor Norberto, comprador de cavalos vindo da região de Brusque. Ele comprava animais no planalto catarinense para revender aos produtores de arroz da serra abaixo. Ia reunindo a tropa adquirida de diversos criadores em um só lugar e, depois, os conduzia rumo ao litoral.
Um dos pontos de reunião desses cavalos era justamente a mangueira da Fazenda Estância Nova. Qual não foi a surpresa do senhor Juca ao ver, entre vários outros equinos, o seu cavalo vermelho? Foi uma emoção enorme, misturada com susto e espanto.
Juca estava ao lado da mangueira e inicialmente não tinha percebido que seu animal estava entre os comprados por Norberto. Enquanto conversava com outras pessoas, o cavalo vermelho aproximou-se do antigo dono e parou bem ao seu lado. Ao virar-se, Juca quase teve um ataque cardíaco. O cavalo posicionou-se de tal forma que as duas cabeças ficaram bem próximas, num gesto de carinho e emoção mútuos, humano e equino, pela alegria do reencontro.
Em Curitibanos, todos sabiam da história do roubo. Muitos cidadãos conheciam o animal por ser muito dócil e bonito. Além do mais, o delegado da época também o conhecia e sabia da queixa do desaparecimento.
— Achei o meu cavalo! — disse Juca a Norberto. — Esse cavalo é meu, foi roubado daqui há quase um ano.
— O senhor deve estar enganado. Comprei este junto com outros na região, só não me lembro de onde agora — respondeu Norberto.
Uma coisa, porém, ficou evidente naquele momento: a afeição do animal pelo antigo dono. Juca entrou na mangueira, retirou o cavalo vermelho para fora e disse:
— Este cavalo é meu, tenho como provar. Vamos até a delegacia para que o delegado comprove.
Como a insistência foi grande, Norberto resolveu acompanhar Juca até a delegacia de polícia de Curitibanos. Foram os três: Juca, Norberto e o cavalo vermelho. No caminho, cruzaram com duas ou três pessoas que disseram quase a mesma frase:
— Bom dia, seu Juca! Encontrou o seu cavalo?
Depois de ver várias pessoas repetindo a mesma coisa, Norberto deu-se por convencido e entregou o animal ao antigo dono. Aceitou o prejuízo, cumprindo-se assim as palavras da responsadora, adivinha, benzedeira e rezadeira. O cavalo reapareceu na mangueira da Fazenda Estância Nova.
Antigamente, os responsadores, homens e mulheres, em geral, idosos da comunidade, eram muito procurados e respeitados. A crença popular era tão forte que, quando algo sumia, bastava espalhar o boato de que iriam “mandar fulano responsar” para que o objeto misteriosamente reaparecesse, pois quem o havia tomado temia ser desmascarado pelo poder da oração.
No caso do cavalo desaparecido, a solução deu-se por razões explicáveis: o ladrão, sabendo da queixa na delegacia e temendo a prisão, passou o animal adiante. A coincidência ocorreu no fato de Norberto ter surgido na região, alugado a mangueira de Alfredo Goetten Granemann e de Juca estar ali no exato momento em que o próprio cavalo o reconheceu e se aproximou.
De qualquer forma, a fama dos adivinhos era grande em Curitibanos, e muitos acreditavam e confiavam nas palavras daqueles homens e mulheres, famosos por seus dons sobrenaturais.
Referências para o texto:
Informações de Aldair Goeten de Moraes
Informações de Albari Goetten de Moraes
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