Texto de Antonio Carlos Popinhaki
A década de 1920 no Brasil foi marcada pelo desgaste do arranjo oligárquico da República Velha, pela eclosão do Tenentismo e por intensas disputas regionais. A documentação oficial do Governo de Santa Catarina retrata com detalhes a atuação legalista durante a incursão militar: em mensagem ao Congresso Representativo em 22 de julho de 1927, o então Governador Adolpho Konder registrou o impacto das batalhas ocorridas no estado. Cabe ressaltar que Konder assumiu o mandato apenas em 1926, de forma que seu relatório resgatava os episódios vivenciados na gestão anterior, governada por Antônio Pereira da Silva e Oliveira, vice que havia assumido o poder após o falecimento do governador Hercílio Luz em outubro de 1924. Entretanto, foi no Rio Grande do Sul que a oligarquia positivista encabeçada por Antônio Augusto Borges de Medeiros exercia um domínio autoritário. A fraude eleitoral sistêmica e a hegemonia política dos “chimangos” (partidários de Borges de Medeiros) culminaram na Revolução de 1923, opondo-se aos “maragatos” (oposição liderada por Joaquim Francisco de Assis Brasil).
Paralelamente, em âmbito nacional, a eleição do presidente Artur Bernardes descontentou setores militares e camadas médias. O governo Bernardes governou sob quase constante estado de sítio e reprimiu levantes como a Revolta Paulista de 1924, desencadeando a formação da Coluna Prestes.
Diferente dos generais maragatos oriundos das elites estancieiras, Leonel Maria da Rocha destacou-se como o “caudilho a pé” e líder camponês. Veterano da Revolução Federalista de 1893, onde serviu sob as ordens de Gumercindo Saraiva e carregou quatro cicatrizes de bala pelo corpo, ele assumiu o comando das forças maragatas na Região Norte do Rio Grande do Sul.
Principais atuações de Leonel da Rocha em 1923:
Comando Popular: Organizou no Exército Libertador uma coluna de mais de mil homens, composta por pequenos lavradores, peões e ervateiros.
Táticas de Guerrilha: Utilizou ataques rápidos e sabotagens de infraestrutura para conter o exército governista.
Ações Militares: Comandou e participou do levante em Palmeira das Missões, da incursão a Passo Fundo, da invasão a Erechim e do combate na Estação Santa Bárbara.
Legado Cultural: Sua popularidade era tamanha que o pai de Leonel Brizola, José Brizola (tropeiro de sua coluna), inspirou a mudança posterior do nome de batismo de seu filho de Itagiba para Leonel.
Com o Tratado de Pedras Altas (dezembro de 1923), que pôs fim à Revolução de 1923, as colunas foram desmobilizadas, mas a oposição a Borges e Bernardes manteve a articulação armada.
Em fins de 1924, a formação da “Coluna Relâmpago” em San Xavier (Argentina), sob o comando de Leonel da Rocha e do General Fidêncio de Mello, articulava-se diretamente com o levante liderado por Luiz Carlos Prestes e Miguel Costa no Rio Grande do Sul (outubro/novembro de 1924). O objetivo estratégico dessa incursão no oeste de Santa Catarina e travessia até o Paraná não era isolado: visava abrir caminho, atrair tropas governistas e criar uma frente de apoio no Sul para viabilizar a junção das forças rebeldes paulistas e gaúchas. Esse movimento estratégico foi decisivo para a consolidação e o início da marcha histórica da Coluna Prestes pelo interior do país.
Ao reingressar em solo catarinense em dezembro de 1924, a coluna percorreu Ouro Verde, Curitibanos, Campos Novos, Lages e São Joaquim.
Na região em que, menos de uma década antes, havia se desenrolado a sangrenta Campanha do Contestado (1912–1916), a força de Leonel da Rocha buscou recrutar voluntários, reunir suprimentos e arrebanhar gado e cavalhadas. A população sertaneja e urbana local, ainda profundamente traumatizada pelas pilhagens, incêndios e violência massiva daquela recente guerra cabocla, encarou a passagem tanto da coluna rebelde quanto das tropas legalistas com bastante temor, desconfiança e apreensão. Esse clima de instabilidade e incerteza causou grande abalo na ordem pública local e levou o governo estadual catarinense a articular uma resposta militar em cooperação com o Governo Federal.
Quem estava ocupando a cadeira de gestor municipal em Curitibanos em 1924, era Henrique Paes de Almeida, conhecido popularmente como “Henriquinho”. A reação às forças rebeldes envolveu tropas federais e contingentes de civis arregimentados no interior. Como Tenente coronel da Guarda Nacional, Henriquinho denodado comandante das forças irregulares e civis de Curitibanos, atuou na organização da defesa local e na contenção dos rebeldes na região. Ele precisou organizar um grupo de homens legalistas e se unir aos demais perseguidores da coluna de Leonel da Rocha. Entre os que se alinharam a ele, destacam-se:
Major José Luiz Maia: Comandante das forças irregulares de Chapecó.
Coronel Elysiario Paim Filho: Comandante encarregado da perseguição direta ao bando revoltoso a partir de Campos Novos.
Coronel Manoel dos Passos Maia: Atuou na mobilização de contingentes civis em Santa Catarina.
Em 12 de dezembro de 1924, os rebeldes atacaram a vila de Campos Novos, mas foram rechaçados pelas forças locais e pelo 2.º Batalhão da Força Pública Paulista, sofrendo doze baixas entre mortos e feridos.
O impacto desse revés repercutiu imediatamente na imprensa: na própria edição do dia 12 de dezembro de 1924, o jornal A República noticiou um comunicado vindo de Cruz Alta informando que o contingente de Leonel da Rocha já se encontrava reduzido a menos de 100 homens, em fuga desordenada e sob intensa pressão das forças legalistas.
A despeito das perdas em Campos Novos e da constante perseguição, a coluna conseguiu ocupar a sede de São Joaquim na manhã de 24 de dezembro de 1924. Contudo, o cerco movido pelo Coronel Elysiario Paim Filho levou ao desfecho do conflito no ano seguinte: em 3 de janeiro de 1925, no Morro do Cedro (São Joaquim), as forças legalistas atacaram e desbarataram definitivamente a coluna de Leonel da Rocha.
As consequências materiais e humanas do combate foram:
Perdas Rebeldes: A coluna perdeu seu armamento, carregueiros de munição, cavalhada e arquivo de intendência.
Oficiais Capturados: Foram aprisionados o capitão Sampson da Nóbrega Sampaio, os primeiros-tenentes Alfredo de Simas Enéas (chefe do estado-maior) e Euclides Joaquim Lins (chefe da intendência), os oficiais Alfredo Pimenta Gnone e Edgard Bins, e mais de trinta soldados.
Após a derrota, Leonel da Rocha e um reduzido grupo de remanescentes tentaram avançar em direção a Bom Retiro para tentar alcançar a região do Contestado por Urubici. No entanto, foram novamente batidos por um contingente da Força Pública catarinense entre Panelão e Santa Clara, localidades rurais vizinhas situadas na Serra Catarinense, no entroncamento rodoviário que conecta os municípios de Bom Retiro e Urubici.
Com a tropa reduzida a poucos homens e desprovida de montaria, Leonel da Rocha valeu-se de seu conhecimento do terreno e das táticas de fuga a pé. Aproveitando-se da exaustão das tropas do Coronel Paim, o caudilho frustrou a vigilância legalista, retirou-se em direção ao Rio Grande do Sul (passando por Bom Jesus e Erechim) e cruzou a fronteira em direção ao exílio na Argentina.
O desbaratamento da Coluna Relâmpago no Morro do Cedro encerrou as incursões armadas na região serrana e no planalto catarinense. As medidas de exceção (estado de sítio) aplicadas nos estados do Sul foram suspensas até o final de janeiro de 1925. Em 29 de janeiro de 1925, Leonel da Rocha encontrava-se na região noroeste do Rio Grande do Sul com cerca de 50 homens que o acompanhavam, contrastando com os cerca de 800 homens que, pouco tempo antes, integravam suas fileiras.
Após anos no exílio e com a pacificação definitiva dos conflitos estaduais ao longo das décadas seguintes, Leonel Maria da Rocha recolheu-se à vida privada no Norte do Rio Grande do Sul. Viveu de forma simples, mantendo o respeito regional como autoridade moral e militar.
Leonel da Rocha faleceu de causas naturais em 20 de dezembro de 1947, aos 81 anos de idade, no município de Erechim (RS).
Referências Bibliográficas e Fontes Históricas
Mensagem apresentada ao Congresso Representativo de Santa Catarina pelo Governador Dr. Adolpho Konder, em 22 de julho de 1927. Imprensa Oficial do Estado. Florianópolis, pp. 52-55 (Documento Anexo).
Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro (DHBB) / Fundação Getulio Vargas (FGV) - Verbete sobre o Tenentismo e as Campanhas no Sul (1924-1925).
História das Revoluções Gaúchas: Registros sobre a Revolução de 1923 e o Tratado de Pedras Altas.
Enciclopédia de História do Brasil: Registros biográficos sobre Leonel Maria da Rocha, a Coluna Prestes e os confrontos em São Joaquim.

Nenhum comentário:
Postar um comentário