quinta-feira, 3 de setembro de 2026

A Incursão de Leonel Maria da Rocha em Santa Catarina


Texto de Antonio Carlos Popinhaki


A década de 1920 no Brasil foi marcada pelo desgaste do arranjo oligárquico da República Velha, pela eclosão do Tenentismo e por intensas disputas regionais. A documentação oficial do Governo de Santa Catarina retrata com detalhes a atuação legalista durante a incursão militar: em mensagem ao Congresso Representativo em 22 de julho de 1927, o então Governador Adolpho Konder registrou o impacto das batalhas ocorridas no estado. Cabe ressaltar que Konder assumiu o mandato apenas em 1926, de forma que seu relatório resgatava os episódios vivenciados na gestão anterior, governada por Antônio Pereira da Silva e Oliveira, vice que havia assumido o poder após o falecimento do governador Hercílio Luz em outubro de 1924. Entretanto, foi no Rio Grande do Sul que a oligarquia positivista encabeçada por Antônio Augusto Borges de Medeiros exercia um domínio autoritário. A fraude eleitoral sistêmica e a hegemonia política dos “chimangos” (partidários de Borges de Medeiros) culminaram na Revolução de 1923, opondo-se aos “maragatos” (oposição liderada por Joaquim Francisco de Assis Brasil).

Paralelamente, em âmbito nacional, a eleição do presidente Artur Bernardes descontentou setores militares e camadas médias. O governo Bernardes governou sob quase constante estado de sítio e reprimiu levantes como a Revolta Paulista de 1924, desencadeando a formação da Coluna Prestes.



Contexto Político na década de 1920

Nível Federal (Artur Bernardes)

Nível Estadual (Borges de Medeiros)

  • Estado de sítio permanente

  • Repressão ao Tenentismo

  • Autoritarismo governamental

  • Hegemonia da oligarquia chimanga

  • Insatisfação dos Maragatos (1923)

  • Centralização do poder gaúcho




Diferente dos generais maragatos oriundos das elites estancieiras, Leonel Maria da Rocha destacou-se como o “caudilho a pé” e líder camponês. Veterano da Revolução Federalista de 1893, onde serviu sob as ordens de Gumercindo Saraiva e carregou quatro cicatrizes de bala pelo corpo, ele assumiu o comando das forças maragatas na Região Norte do Rio Grande do Sul.



              

Principais atuações de Leonel da Rocha em 1923:


  • Comando Popular: Organizou no Exército Libertador uma coluna de mais de mil homens, composta por pequenos lavradores, peões e ervateiros.


  • Táticas de Guerrilha: Utilizou ataques rápidos e sabotagens de infraestrutura para conter o exército governista.


  • Ações Militares: Comandou e participou do levante em Palmeira das Missões, da incursão a Passo Fundo, da invasão a Erechim e do combate na Estação Santa Bárbara.


  • Legado Cultural: Sua popularidade era tamanha que o pai de Leonel Brizola, José Brizola (tropeiro de sua coluna), inspirou a mudança posterior do nome de batismo de seu filho de Itagiba para Leonel.


Com o Tratado de Pedras Altas (dezembro de 1923), que pôs fim à Revolução de 1923, as colunas foram desmobilizadas, mas a oposição a Borges e Bernardes manteve a articulação armada.

Em fins de 1924, a formação da “Coluna Relâmpago” em San Xavier (Argentina), sob o comando de Leonel da Rocha e do General Fidêncio de Mello, articulava-se diretamente com o levante liderado por Luiz Carlos Prestes e Miguel Costa no Rio Grande do Sul (outubro/novembro de 1924). O objetivo estratégico dessa incursão no oeste de Santa Catarina e travessia até o Paraná não era isolado: visava abrir caminho, atrair tropas governistas e criar uma frente de apoio no Sul para viabilizar a junção das forças rebeldes paulistas e gaúchas. Esse movimento estratégico foi decisivo para a consolidação e o início da marcha histórica da Coluna Prestes pelo interior do país. 








Parâmetro

Detalhes da Operação

Origem e Entrada

Organizada na Argentina, cruzou a fronteira sobre o Rio Peperi-Guaçu em 5 de novembro de 1924, ocupando a vila de Porto Feliz, atual Mondaí, em 7 de novembro.


Objetivo Político

Desestabilizar os governos de Artur Bernardes e Borges de Medeiros.

Objetivo Estratégico

Criar uma frente de combate no Sul para desviar forças legalistas da Coluna Prestes.

Ações no Percurso

Marcha pelo oeste de Santa Catarina, travessia do Paraná (via Palmas) e reentrada no planalto catarinense.




Ao reingressar em solo catarinense em dezembro de 1924, a coluna percorreu Ouro Verde, Curitibanos, Campos Novos, Lages e São Joaquim.

Na região em que, menos de uma década antes, havia se desenrolado a sangrenta Campanha do Contestado (1912–1916), a força de Leonel da Rocha buscou recrutar voluntários, reunir suprimentos e arrebanhar gado e cavalhadas. A população sertaneja e urbana local, ainda profundamente traumatizada pelas pilhagens, incêndios e violência massiva daquela recente guerra cabocla, encarou a passagem tanto da coluna rebelde quanto das tropas legalistas com bastante temor, desconfiança e apreensão. Esse clima de instabilidade e incerteza causou grande abalo na ordem pública local e levou o governo estadual catarinense a articular uma resposta militar em cooperação com o Governo Federal.

Quem estava ocupando a cadeira de gestor municipal em Curitibanos em 1924, era Henrique Paes de Almeida, conhecido popularmente como “Henriquinho”. A reação às forças rebeldes envolveu tropas federais e contingentes de civis arregimentados no interior. Como Tenente coronel da Guarda Nacional, Henriquinho denodado comandante das forças irregulares e civis de Curitibanos, atuou na organização da defesa local e na contenção dos rebeldes na região. Ele precisou organizar um grupo de homens legalistas e se unir aos demais perseguidores da coluna de Leonel da Rocha. Entre os que se alinharam a ele, destacam-se:


  • Major José Luiz Maia: Comandante das forças irregulares de Chapecó.


  • Coronel Elysiario Paim Filho: Comandante encarregado da perseguição direta ao bando revoltoso a partir de Campos Novos.


  • Coronel Manoel dos Passos Maia: Atuou na mobilização de contingentes civis em Santa Catarina.


Em 12 de dezembro de 1924, os rebeldes atacaram a vila de Campos Novos, mas foram rechaçados pelas forças locais e pelo 2.º Batalhão da Força Pública Paulista, sofrendo doze baixas entre mortos e feridos.

O impacto desse revés repercutiu imediatamente na imprensa: na própria edição do dia 12 de dezembro de 1924, o jornal A República noticiou um comunicado vindo de Cruz Alta informando que o contingente de Leonel da Rocha já se encontrava reduzido a menos de 100 homens, em fuga desordenada e sob intensa pressão das forças legalistas.

A despeito das perdas em Campos Novos e da constante perseguição, a coluna conseguiu ocupar a sede de São Joaquim na manhã de 24 de dezembro de 1924. Contudo, o cerco movido pelo Coronel Elysiario Paim Filho levou ao desfecho do conflito no ano seguinte: em 3 de janeiro de 1925, no Morro do Cedro (São Joaquim), as forças legalistas atacaram e desbarataram definitivamente a coluna de Leonel da Rocha.

 



Combate do Morro do Cedro (3 de janeiro de 1925)

Forças Legalistas (Coronel Paim)

Coluna Rebelde (Leonel da Rocha)

  • Cerco tático e ataque fulminante

  • Tropas exaustas após o combate

  • Prisão de importantes oficiais

  • Perda de todo o armamento

  • Perda da cavalhada e suprimentos

  • Abandono do arquivo de campanha


As consequências materiais e humanas do combate foram:


  • Perdas Rebeldes: A coluna perdeu seu armamento, carregueiros de munição, cavalhada e arquivo de intendência.


  • Oficiais Capturados: Foram aprisionados o capitão Sampson da Nóbrega Sampaio, os primeiros-tenentes Alfredo de Simas Enéas (chefe do estado-maior) e Euclides Joaquim Lins (chefe da intendência), os oficiais Alfredo Pimenta Gnone e Edgard Bins, e mais de trinta soldados.


Após a derrota, Leonel da Rocha e um reduzido grupo de remanescentes tentaram avançar em direção a Bom Retiro para tentar alcançar a região do Contestado por Urubici. No entanto, foram novamente batidos por um contingente da Força Pública catarinense entre Panelão e Santa Clara, localidades rurais vizinhas situadas na Serra Catarinense, no entroncamento rodoviário que conecta os municípios de Bom Retiro e Urubici.

Com a tropa reduzida a poucos homens e desprovida de montaria, Leonel da Rocha valeu-se de seu conhecimento do terreno e das táticas de fuga a pé. Aproveitando-se da exaustão das tropas do Coronel Paim, o caudilho frustrou a vigilância legalista, retirou-se em direção ao Rio Grande do Sul (passando por Bom Jesus e Erechim) e cruzou a fronteira em direção ao exílio na Argentina.

O desbaratamento da Coluna Relâmpago no Morro do Cedro encerrou as incursões armadas na região serrana e no planalto catarinense. As medidas de exceção (estado de sítio) aplicadas nos estados do Sul foram suspensas até o final de janeiro de 1925. Em 29 de janeiro de 1925, Leonel da Rocha encontrava-se na região noroeste do Rio Grande do Sul com cerca de 50 homens que o acompanhavam, contrastando com os cerca de 800 homens que, pouco tempo antes, integravam suas fileiras.

Após anos no exílio e com a pacificação definitiva dos conflitos estaduais ao longo das décadas seguintes, Leonel Maria da Rocha recolheu-se à vida privada no Norte do Rio Grande do Sul. Viveu de forma simples, mantendo o respeito regional como autoridade moral e militar.

Leonel da Rocha faleceu de causas naturais em 20 de dezembro de 1947, aos 81 anos de idade, no município de Erechim (RS).



Referências Bibliográficas e Fontes Históricas


  1. Mensagem apresentada ao Congresso Representativo de Santa Catarina pelo Governador Dr. Adolpho Konder, em 22 de julho de 1927. Imprensa Oficial do Estado. Florianópolis, pp. 52-55 (Documento Anexo).


  1. Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro (DHBB) / Fundação Getulio Vargas (FGV) - Verbete sobre o Tenentismo e as Campanhas no Sul (1924-1925).


  1. História das Revoluções Gaúchas: Registros sobre a Revolução de 1923 e o Tratado de Pedras Altas.


  1. Enciclopédia de História do Brasil: Registros biográficos sobre Leonel Maria da Rocha, a Coluna Prestes e os confrontos em São Joaquim.


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Antonio Carlos Popinhaki foi membro do Conselho de Políticas Culturais na área de História e Memória Cultural, Arquivos, Bibliotecas, Pesquisa e Documentação entre os anos de 2016 e 2025; Bacharel em Economia Agroindustrial pela Universidade do Contestado. Graduado em Licenciatura em História pelo Centro Universitário UniFaveni. Pós-graduado em Auditoria e Perícia Contábil pela Universidade Católica Dom Bosco. — Professor, escritor, historiador e pesquisador de história. Desde o ano de 2021 é o Coordenador do Arquivo Histórico do Museu Histórico Antonio Granemann de Souza de Curitibanos/SC.

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