Texto de Antonio Carlos Popinhaki
Não faz muitos anos que as tradições ligadas à morte na Serra Catarinense estiveram profundamente marcadas pela cultura tropeira, pelo isolamento histórico das fazendas, pela marca dos imigrantes e remanescentes da colonização europeia e por um catolicismo popular devocional. No ambiente rural e serrano, o falecimento de um membro da comunidade mobilizava vilas inteiras em rituais que misturavam respeito sagrado, solidariedade comunitária e dinâmicas sociais muito específicas. Diante da vastidão geográfica e da ausência histórica de serviços urbanos modernos, os costumes tradicionais moldaram uma forma única de vivenciar os velórios, os enterros e o luto na região.
Nas comunidades mais isoladas do interior serrano, o anúncio do falecimento seguia um protocolo comunitário rígido para garantir que a notícia se espalhasse pelas extensas propriedades rurais. O primeiro sinal vinha do toque compassado e lento do sino da igreja local, o chamado dobrar de finados. A quantidade ou o ritmo das batidas muitas vezes indicava aos moradores se o falecido era homem, mulher ou criança, além da idade aproximada da pessoa. Simultaneamente, antes do advento das telecomunicações, mensageiros a cavalo eram enviados às fazendas e localidades vizinhas para avisar os parentes distantes sobre o ocorrido e informar o horário do sepultamento.
Com a comunidade mobilizada, o velório ocorria historicamente na sala de estar da própria residência do falecido, visto que as capelas mortuárias urbanas só se popularizaram a partir do final do século XX. O espaço doméstico transformava-se em um templo sagrado por meio da vigília das velas. O corpo era colocado em cima de uma grande mesa ou cavaletes no centro da sala, cercado por velas acesas nos quatro cantos do caixão, prática que deu origem ao termo velar. Para resguardar o ambiente espiritual, as janelas eram fechadas e os espelhos costumavam ser cobertos com tecidos escuros, uma superstição antiga para impedir que a alma ficasse presa no reflexo.
Dado que os velórios duravam a noite inteira e recebiam pessoas que viajavam longas distâncias a cavalo ou em carroças, a alimentação coletiva tornava-se essencial. A família e os vizinhos organizavam-se para carnear um boi ou ovelha e servir grandes paneladas de ensopado, café preto fortíssimo, roscas e cachaça para manter os presentes acordados durante a madrugada. Na ausência frequente de um padre nas capelas do interior, a condução espiritual ficava a cargo dos rezadores de ofício. Essas figuras centrais do catolicismo popular, homens ou mulheres idosas conhecidos como puxadores de reza, conduziam o terço cantado e as orações das exéquias em latim arcaico ou português rústico e ou coloquial ao longo da noite. Essa linguagem era característica do modo de falar de membros das comunidades rurais, isoladas e historicamente formadas por populações de baixa escolaridade. Na Serra Catarinense, ela é fruto do isolamento das fazendas e da herança do dialeto caipira e tropeiro.
Tradicionalmente, não era permitido varrer a casa à noite, pois o ato era visto como um mau agouro. Naquele tempo, sem energia elétrica no interior, as residências permaneciam no escuro. A exceção de varrer a casa à noite ocorria durante os velórios, quando as velas ficavam acesas a noite toda. Essa iluminação atraía a “Rasga-Mortalha”, uma espécie de coruja da serra catarinense de hábitos noturnos. O pássaro, do tamanho de uma galinha, assustava os moradores ao fazer voos rasantes sobre a casa. Além disso, emitia um canto assustador que lembrava o barulho de um pano sendo rasgado, origem de seu nome. Se não houvesse velório na casa, mas os moradores demorassem a dormir e mantivessem a vela acesa, a ave também aparecia e dava seus rasantes. Para a tradição popular, aquilo era um presságio definitivo: alguém daquela família estava prestes a morrer.
Nesse cenário fúnebre, havia também as mulheres choradeiras, igualmente conhecidas como carpideiras ou pranteadeiras, desempenhavam um papel social, psicológico e ritualístico crucial. Trazido ao Brasil pela colonização portuguesa, esse costume fincou raízes profundas nas comunidades rurais e isoladas da região serrana, onde a manifestação pública da dor seguia regras sociais rígidas. O papel dessas mulheres ia muito além do simples ato mecânico de chorar, atuando diretamente na facilitação da catarse e do choro coletivo. Como os homens serranos eram criados para serem figuras severas, focadas na lida do campo e desencorajados a demonstrar fraqueza, as carpideiras funcionavam como um gatilho emocional. Ao entoarem lamentos agudos e frases de profunda tristeza, elas rompiam o silêncio constrangedor e permitiam que os familiares mais contidos desabassem em lágrimas.
Além desses costumes, havia a reunião das costureiras, que passavam a noite em claro confeccionando a vestimenta do falecido e peças pretas para toda a família enlutada. Sempre que possível, a família comprava metros de tecido com antecedência para facilitar essa tarefa. No momento do sepultamento, todos compareciam vestidos de preto, simbolizando o chamado “luto fechado”. Esse hábito era mantido com rigor pelos parentes mais próximos. Já os mais distantes, como primos de segundo ou terceiro grau, usavam apenas uma peça escura, enquanto as mulheres cobriam a cabeça com um lenço preto. Por tradição, o período de luto durava um ano, período em que as roupas coloridas eram totalmente abolidas, um costume cuja duração e rigor variavam conforme a proximidade do parentesco.
Em alguns lugares do interior, também se costumava “beber o morto”. Durante o velório, uma caneca de cachaça passava de mão em mão para que todos dessem um gole. Quando o líquido acabava, a caneca era reabastecida e o ritual recomeçava.
Além da função psicológica, a atuação das choradeiras servia como um termômetro do prestígio social do falecido. Havia uma forte convenção social de que a relevância de uma pessoa era medida pela quantidade de lágrimas derramadas em sua despedida; um velório silencioso ou vazio poderia sugerir que o morto era um sujeito solitário ou desrespeitado. As famílias recorriam às carpideiras para dar volume, imponência e drama ao funeral, associando a intensidade do pranto à honra da memória familiar. Vestidas de luto fechado, essas mulheres também acumulavam a função de condutoras espirituais, liderando as ladainhas da madrugada para ajudar a alma a se desapegar da Terra. No interior serrano, a atividade funcionava em uma economia de troca e solidariedade: as choradeiras, geralmente senhoras idosas da comunidade, doavam sua energia emocional e recebiam em contrapartida, doadas como uma espécie de pagamento pelos serviços prestados, mantimentos como cortes de carne, sacas de feijão, milho ou mantas de banha.
O momento de levar o corpo até o cemitério da comunidade era um ato de profunda cooperação física e simbólica, caracterizado pelo cortejo tropeiro. O caixão era carregado nos ombros pelos homens mais próximos, parentes, compadres e amigos de confiança, da casa até o cemitério, mesmo que a distância fosse de alguns quilômetros, em um trajeto feito em silêncio ou sob o som de rezas murmuradas. Em muitas propriedades tradicionais, encontram-se cemitérios de fazenda familiares murados com taipas, que são os típicos muros de pedra encaixada da região, onde os patriarcas e seus descendentes eram enterrados na própria terra. Contudo, as regras religiosas eram estritas: seguindo os dogmas rígidos do catolicismo antigo, as pessoas que tiravam a própria vida sofriam a recusa aos suicidas, sendo sepultadas do lado de fora dos muros ou da cerca do campo santo.
O luto na Serra Catarinense não terminava com o sepultamento, pois ele regia a vida social da família por meses ou anos através de rituais post-mortem rigorosos. Uma das tradições mais ricas era a coberta d'alma, trazida pelos imigrantes açorianos, na qual a família escolhia uma pessoa necessitada da comunidade com porte físico semelhante ao do falecido para receber roupas novas e um banquete, simbolizando o ato de vestir e alimentar a alma em sua transição espiritual. Paralelamente, o isolamento era marcado pelas roupas pretas: viúvas e filhas vestiam o luto fechado por pelo menos um ano, enquanto os homens usavam uma tarja preta na manga do paletó ou no chapéu de feltro, abstendo-se todos de festas, rodeios ou música. O ciclo se encerrava no compromisso com o culto aos mortos, que exigia obrigações morais intransigíveis, como visitar os jazigos no Dia de Finados, caiar os túmulos de pedra e acender velas nos aniversários de falecimento. Embora a urbanização e os serviços funerários modernos tenham modificado a maior parte dessas práticas nas cidades serranas maiores, como Lages, Curitibanos e São Joaquim, muitas dessas memórias e pequenos ritos de vizinhança ainda resistem no cotidiano das comunidades rurais da Serra.
Referências para a produção do texto:
FREITAS, Mariana; MORAES, Lidiane. O mistério das carpideiras: tradição atravessa séculos e ainda intriga. Primeira Página, 25 fev. 2026. Comportamento. Disponível em: https://primeirapagina.com.br/comportamento/o-misterio-das-carpideiras-tradicao-atravessa-seculos-e-ainda-intriga/. Acesso em: 18 ago. 2026.
GAZETA DO POVO (Redação). Carpideiras, panos brancos sobre os objetos e santinhos: o que restou do “morrer de antigamente”?. Gazeta do Povo, Curitiba, 31 out. 2015. Vida e Cidadania. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/vida-e-cidadania/carpideiras-panos-brancos-sobre-os-objetos-e-santinhos-o-que-restou-do-morrer-de-antigamente-es4tqvyhg60hqp8r0wga3k4ol/. Acesso em: 18 ago. 2026.
Informações de Aldair Goeten de Moraes
ISAIA, Artur Cesar; TOMASI, Julia Massucheti. Sepultando seus entes: os rituais católicos de morte em Florianópolis na contemporaneidade. Mouseion, Canoas, v. 17, n. 1, ano 8, p. 11-28, 2014.
RIBEIRO, Léo. Quem eram as carpideiras? on line, disponível em: http://blogdoleoribeiro.blogspot.com/2021/12/quem-eram-as-carpideiras.html. Acesso em 18 de agosto de 2026.

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