Texto de Antonio Carlos Popinhaki
Hoje escrevo sobre uma curiosidade que a maioria absoluta dos curitibanenses, e também daqueles que passaram a residir no município, não sabe nem imagina que aconteceu. Era 1914, um ano crucial para a nossa história. Estava em curso um conflito social na região, conhecido por diferentes nomes: para um lado, era a “Guerra Santa de São Sebastião”; para o outro, a “Guerra dos Fanáticos”. Com o passar dos anos, o combate ganhou seu nome definitivo: Guerra do Contestado.
Tudo começou em 1912, com a chegada de um homem convidado para ser a atração principal da festa do Senhor Bom Jesus, realizada no mês de agosto, no interior de Curitibanos, na localidade de Taquaruçu. Ele se apresentou como José Maria, mas seu nome real era Miguel Lucena de Boaventura. Tratava-se de um ex-militar das forças do estado vizinho, o Paraná, um desertor que se vestiu como monge andarilho para se infiltrar nas matas dos sertões da época. Para os moradores do interior, um monge andarilho era um homem santo, curador, profeta e enviado de Deus. A crença popular ditava que esses homens não morriam: eles apenas transitavam de um corpo para outro através das épocas.
Após uma breve passagem por Campos Novos, na fazenda do pecuarista Francisco de Almeida, ele chegou a Taquaruçu criticando a República e exaltando uma suposta monarquia celestial. Era um homem experiente, letrado e de conhecimentos vastos, incluindo história medieval. Mostrou-se um político habilidoso, um instrutor experiente de combate corpo a corpo e um curador que receitava remédios caseiros à base de ervas da flora serrana. Relatos históricos apontam para uma suposta reunião no caminho para Taquaruçu, às margens do Rio Correntes, entre o monge e o Tenente-Coronel Henrique Paes de Almeida Filho, o “Henriquinho”. Naquele cenário, Henriquinho, que liderava a oposição na política local, teria presenteado José Maria com sua própria espada da Guarda Nacional. O gesto, altamente simbólico, conferia ao monge autoridade e legitimidade para enfrentar o superintendente municipal de Curitibanos, Francisco Ferreira de Albuquerque.
Fosse verdade ou não, um fato era incontestável: o superintendente municipal não gostou do expressivo agrupamento de pessoas em torno de José Maria durante a festa do Senhor Bom Jesus de 1912. Diante disso, telegrafou ao governador de Santa Catarina, seu compadre por três vezes, Vidal Ramos Júnior, alertando que a monarquia havia sido proclamada no interior de Curitibanos. O governador ordenou imediatamente a prisão do monge. Para garantir o cumprimento da ordem, o governador enviou tropas do Corpo de Segurança Pública de Florianópolis para Lages. Esse contingente aguardaria o comando final para atacar e dispersar os devotos concentrados em Taquaruçu.
Albuquerque enfrentou sérias dificuldades para cumprir a ordem do governador. Como prender um homem cercado e adorado por cerca de 700 devotos? Ele arquitetou um plano: enviou um emissário a Taquaruçu com a falsa notícia de que um parente seu estava gravemente doente. Em tom de ordem, o superintendente exigia que o monge o acompanhasse até a vila de Curitibanos para realizar a cura. Contudo, José Maria estava longe de ser ingênuo; alfabetizado e perspicaz, o que contrastava com a maioria da população local da época, ele percebeu a armadilha. O monge rebateu o emissário com firmeza: “A distância de Taquaruçu a Curitibanos é a mesma de Curitibanos a Taquaruçu. Se o superintendente quer a cura de seu parente, traga-o até aqui. Não irei à vila”.
Quando o coronel Francisco Ferreira de Albuquerque escutou a resposta do emissário, ficou tomado pela ira e pelo nervosismo, a ponto de desejar mobilizar as forças militares em direção ao lugar chamado de Taquaruçu. Por outro lado, o monge João Maria, percebendo que mais cedo ou mais tarde seria preso, resolveu partir. Convocou 40 homens e dirigiu-se para o oeste, região que mais tarde se tornaria o oeste do estado de Santa Catarina. Foi pára os campos do Irani.
Antes de ir embora, reuniu o povo local e declarou: “Prestem bem atenção no que vou lhes dizer: vou para o Oeste, para a região em litígio, em disputa entre o Paraná e Santa Catarina, onde acredito que terei paz. Mas fiquem atentos: se houver um confronto, uma batalha ou um entrevero nesta minha viagem, eu morrerei. Não se preocupem, pois dentro de um ano voltarei com o Exército Encantado de São Sebastião para fazer justiça e implantar definitivamente a monarquia celestial. Faremos justiça e vingança; todos aqueles que nos fizeram mal pagarão por cada uma de suas ações”.
Quando o povo escutou aquelas palavras, não deu muita atenção; afinal, ninguém ali conhecia ou tinha visto alguém ressuscitar. Assim, José Maria seguiu para o Oeste com os 40 homens, em direção à região dos Campos do Irani. Ao passar por Campos Novos, o superintendente Henrique Rüpp tentou dissolver o agrupamento, mas sem sucesso. Ao chegar ao Irani, José Maria reuniu ao seu redor cerca de 200 pessoas, entre homens, mulheres e crianças.
Quando a notícia sobre aquele grupo reunido no interior chegou aos ouvidos do governador do Paraná, em Curitiba, ele se alvoroçou. Deduziu que Santa Catarina estava mobilizando civis para tomar o território em litígio à força. O governador, então, convocou o coronel João Gualberto Gomes de Sá Filho e o enviou à região com cerca de 70 homens.
Antes de partir de Curitiba, João Gualberto prometeu trazer o monge José Maria amarrado para um desfile nas principais ruas da capital paranaense. Ele também exibiu aos presentes uma poderosa metralhadora, testada publicamente ao derrubar um pequeno pinheiro. Durante o trajeto, nos Campos de Palmas, o coronel comprou todo o estoque de cordas que encontrou no vilarejo para amarrar o maior número possível de prisioneiros.
Mais tarde, ao atravessar um riacho na localidade do Horizonte, os soldados deixaram a metralhadora cair na água. O impacto danificou um componente do equipamento, falha que passou despercebida por todos naquele momento.
No momento do confronto, a metralhadora falhou. Os homens que seguiam o monge José Maria, cerca de 200 caboclos armados, em sua maioria, com facões, avançaram sobre as tropas, resultando na morte de diversos militares, incluindo o próprio coronel João Gualberto. Por uma ironia do destino, o monge também acabou atingido por uma bala perdida e morreu no combate.
A notícia da morte abalou os fiéis. Ao se lembrarem das palavras ditas em Taquaruçu, muitos passaram a acreditar na profecia. Entre outubro de 1912 e outubro de 1913, não se falava em outro assunto no interior catarinense: pregava-se a chegada da "Guerra Santa de São Sebastião" e dizia-se que "feliz seria aquele que avistasse o rabo do cavalo de São Sebastião, pois este seria um homem de sorte".
Completado um ano da morte de José Maria, cerca de três mil pessoas reuniram-se em Taquaruçu, sob a liderança dos festeiros de 1912, aguardando sua ressurreição. Como a promessa não se cumpriu na data prevista, a apreensão tomou conta do acampamento. Foi então que uma menina chamada Teodora afirmou aos líderes ter visto e falado com o monge em uma mata próxima. Segundo ela, José Maria dissera que ainda não havia ressuscitado por estar resolvendo problemas no céu, mas que todos deveriam permanecer unidos.
A partir desse episódio, consolidou-se uma irmandade cabocla, uma forma de religiosidade popular paralela aos ensinamentos da Igreja Católica, com doutrina e rituais próprios, como procissões, romarias e cânticos. O rápido crescimento desse ajuntamento alarmou o superintendente de Curitibanos. Em resposta, o governo de Santa Catarina mobilizou o 54.º Batalhão de Caçadores que, em 8 de fevereiro de 1914, bombardeou e destruiu o reduto de Taquaruçu. A maior parte dos líderes e integrantes do grupo, no entanto, já havia se transferido para uma nova localidade chamada Caraguatá.
Os membros dessa irmandade cabocla adotavam o lema: "Quem tem mói, quem não tem mói também, e no final todos ficam iguais". A máxima expressava a ideia de que quem possuía mantimentos comia, quem não tinha também se alimentava e, no fim, todos se saciavam, uma forma comunitária de partilha. Para sustentar o grupo, cada integrante contribuía com o que possuía: alguns doavam dinheiro, outros traziam gado, animais, cereais ou a produção de suas colheitas, repartindo tudo de maneira igualitária.
Entretanto, em julho de 1914, os recursos financeiros e os estoques de alimentos se esgotaram, forçando a comunidade a entrar em uma nova e dramática fase. Para garantir a subsistência, os homens passaram a atacar fazendas vizinhas, saquear gado, incendiar casas e cometer diversos atos de violência. Assim, o movimento migrou do fanatismo religioso para ações associadas ao banditismo.
Para resolver a situação, fez-se necessária a intervenção do Exército Brasileiro, que mobilizou seis mil homens em uma operação de cerco destinada a sufocar os diversos redutos formados ao longo de uma região de 28 mil quilômetros quadrados.
A liderança desses núcleos populacionais, chamados de “redutos” passou pelas mãos de diferentes figuras, entre meninas, jovens e homens, todos devotos de José Maria e de João Maria, monge que peregrinara pela região anos antes. Em uma dessas ofensivas, no dia 26 de setembro de 1914, cerca de 250 homens armados atacaram de surpresa a vila de Curitibanos durante a madrugada. O dia ainda estava por clarear quando essa turba entrou atirando para o alto e gritando: “Viva São João Maria!” “Viva São José Maria!” “Morra Albuquerque!” “Chega de pobreza!”
Começaram a queimar imóveis. Vinham da região de Calmon, próximo a Caçador, onde dias antes haviam incendiado a filial da Southern Brazil Lumber and Colonization Company. Avisados por telégrafo, os moradores de Curitibanos fugiram às pressas, refugiando-se nos matos com o pouco que puderam carregar: algumas cobertas, alimentos e objetos pessoais. A resistência organizada no dia 25 por um pequeno grupo a quinze quilômetros da vila foi inútil. Logo que chegaram a Curitibanos, os invasores puseram fogo a prédios-chave da comunidade: o açougue municipal, a sede da superintendência (que também era chamada de Casa da Câmara e Cadeia), a redação do jornal “O Trabalho”, a escola pública e os documentos dos cartórios de Registro de Imóveis e alguns do Registro Civil, destruindo documentos fundamentais para a vida administrativa da região.
Enquanto as chamas consumiam a vila, a população assistia impotente, escondida na mata. Os revoltosos incendiaram e destruíram símbolos centrais da ordem local. O prédio da Casa da Câmara e Cadeia, sede administrativa pública, foi reduzido a cinzas, assim como as importantes residências do coronel Francisco Ferreira de Albuquerque e do promotor de justiça interino, Marcílio João da Cruz Maia. No total, além desses três edifícios de maior destaque, quase duas dezenas de casas de moradia foram consumidas pelo fogo e ou saqueadas. A vila, que contava com aproximadamente 120 casas, a maioria de construção modesta em madeira, viu parte significativa de seu patrimônio e de sua segurança desaparecer em chamas.
Contudo, a ameaça não terminara. No final de novembro daquele mesmo ano, o comando militar recebeu uma informação alarmante e digna de crédito: os mesmos fanáticos, desta vez, liderados por Paulino Pereira da Silva, antigo industrial e comerciante da região, planejavam um novo e ainda mais violento ataque a Curitibanos para o dia 1.º de dezembro de 1914. Seu intuito declarado era destruir as casas remanescentes dos “hereges”, termo que designava os que não partilhavam de suas crenças e, sobre os escombros, erguer uma “cidade santa”. Era uma repetição ampliada do horror de setembro, e a população, ainda traumatizada, vivia sob a sombra de um novo massacre. Dessa forma, muitos não retornaram para a sede da vila, permanecendo acampados nas matas até a chegada do exército. Outros, abandonaram de vez a vila de Curitibanos e procuraram outros centros.
Para evitar essa tragédia, o 58.º Batalhão de Caçadores, empreendeu uma operação militar notável. Partindo de Rio do Sul, a tropa realizou uma marcha forçada de aproximadamente 140 quilômetros por um terreno extremamente acidentado, cortado por picadas na mata fechada da serra catarinense. A coluna, dividida em pequenos grupos volantes, enfrentou chuva, sol abrasador, fome e a constante ameaça de emboscadas em uma verdadeira odisseia. Após dias de uma jornada extenuante, que impressionou até o alto comando pela sua precisão e resistência, os soldados chegaram a Curitibanos em 29 de novembro de 1914. A entrada na vila foi triunfal e pacífica, sem que um único tiro fosse necessário. A população refugiada nas matas circundantes há dois meses, recebeu as tropas com júbilo e alívio, pois a presença militar garantia, por fim, uma barreira contra a iminente destruição.
Assim, a história do incêndio de Curitibanos se desdobra em dois atos: primeiro, a devastação real e simbólica de setembro de 1914, que deixou marcas profundas na paisagem e no espírito da comunidade; e segundo, a marcha hercúlea que, dois meses depois, impediu que a tragédia se repetisse em escala ainda maior. O episódio evidencia a crueldade do conflito, que tinha como alvo a população civil e suas instituições, e, ao mesmo tempo, destaca a resposta organizada do Exército, que, naquele momento, conseguiu ser um escudo para os curitibanenses.
Durante a ocupação militar de Curitibanos, o exército brasileiro recebeu homenagens significativas das autoridades locais, que reconheceram publicamente a conduta da tropa. Em uma carta formal endereçada ao comandante Francisco Raul D’Estillac Leal, o superintendente municipal, Marcos Gonçalves de Farias, e o juiz de direito da comarca, Guilherme Abry, manifestaram “os nossos cumprimentos de despedida” e os “votos de plena felicidade” na continuação da campanha. Mais do que uma cortesia protocolar, a missiva expressava gratidão concreta: “hipotecar-lhe o nosso reconhecimento pelas muitas provas de consideração que, quer como autoridades, quer como particulares, de vossas excelências recebemos”. Eles destacaram ainda o papel do comandante como “uma autoridade de criteriosa energia, aliada a uma bondade captivante” e estenderam os agradecimentos “à distinta oficialidade do correto 58.º Batalhão de Caçadores, pelas relações tão cavalheirescas que conosco ela sempre manteve”. Este documento oficial atesta que, apesar do contexto de guerra e ocupação, as relações entre a cúpula militar e as lideranças civis foram marcadas por respeito mútuo e cortesia. Paralelamente ao rigor operacional, a presença militar em Curitibanos foi amenizada por um toque de arte e cultura, trazido pela banda de música do 58.º Batalhão de Caçadores. Como gesto de despedida e integração com a comunidade, a banda realizou um concerto público no dia 15 de janeiro. O repertório incluía peças selecionadas, como o dobrado “Saudades de Nictheroy”, de autoria do 157 seu mestre, o 1.º sargento João Pereira Gomes. No entanto, foi um episódio singular que capturou a sintonia com o espírito local: atendendo a um pedido expresso de cidadãos da vila, que solicitaram “aquella música que mexe… que mexe com a gente”, o maestro Gomes comandou a execução da popularíssima “Caboca di Caxangá”. O atendimento a este pedido, transformando uma música de dança urbana e popular, um “maxixe”, em parte do repertório de despedida, demonstra uma sensibilidade notável. Foi mais do que um concerto; foi uma concessão cultural, um momento em que a banda militar abdicou parcialmente do protocolo marcial para se conectar com o gosto e a alma do povo que deixava para trás. Assim, enquanto as palavras da carta das autoridades registravam o apreço formal, as notas da “Caboca di Caxangá” ecoaram como uma homenagem informal e afetiva que a tropa oferecia à população de Curitibanos.
A tropa seguiu para enfrentar os fanáticos e desmantelar o Reduto de Santa Maria, dando suporte aos militares que se deslocaram pelo norte. Paralelamente, a canção “Caboca di Caxangá”, de Catulo da Paixão Cearense (1863–1946), célebre músico maranhense conhecido como o “Poeta do Sertão” e responsável por reabilitar o violão nos salões da elite aristocrática, marcou a memória dos curitibanenses de outrora.
Esta é uma curiosidade que talvez a maioria dos nascidos em Curitibanos não conheça. Para ouvir a canção, disponibilizo alguns links para facilitar o acesso. É importante deixar claro que com o passar de mais de um século, há pequenas variações na letra, conforme vários artistas fizeram adaptações próprias. Dessa forma, segue a letra abaixo:
Caboca di Caxangá
Composição: João Pernambuco, Catulo da Paixão Cearense.
Laurindo Punga, Chico Dunga, Zé Vicente
Essa gente tão valente do sertão de Jatobá
E o danado do afamado Zeca Lima
Tudo chora numa prima e tudo quer te traquejá
Cabôca di Caxangá (bis)
Minha cabôca venha cá. (bis)
Queria ver se essa gente também sente
Tanto amor como eu senti
Quando eu te vi em Cariri
Atravessava um regato no patau
E escutava lá no mato
O canto triste do urutau.
Cabôca, demônio mau, (bis)
Sou triste como o urutau. (bis)
Cabôca de Caxangá (bis)
Minha cabôca, vem cá (bis)
Há muito tempo lá nas moita
Da taquara junto ao monte das coivara
Eu não te vejo tu passar
Todo os dia até a boca da noite
Eu te canto uma toada
Lá de baixo do indaiá.
Vem cá, cabôca, vem cá (bis)
Rainha di Caxangá (bis)
Na noite santa do natal na encruzilhada
Eu te esperei e descansei
Até o romper da manhã
Quando eu saia do arraiá o sol nascia
E lá na mata já se ouvia
Pipiando a acauã.
Cabôca, toda manhã
Som triste de acauã (bis)
Cabôca de Caxangá (bis)
Minha cabôca, vem cá (bis)
Links para ouvir:
https://www.youtube.com/watch?v=9YUf2vCutGk
https://www.youtube.com/watch?v=ZYRWHissxGs
https://www.youtube.com/watch?v=kRBI9tnGUbk
https://www.youtube.com/watch?v=8spRyuURWaE
Referências para o texto:
POPINHAKI, Antonio Carlos. O incêndio de Curitibanos / Antonio Carlos Popinhaki. 2.ª ed. : Máxigráfica, Curitiba, Paraná : Ed. do Autor, 2026, 161 p.
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