Texto de Antonio Carlos Popinhaki
O Peso da Memória e o Dever da História
A região de Curitibanos, no planalto catarinense, carrega em sua topografia e em sua memória coletiva as marcas indeléveis de conflitos armados que moldaram a história do Sul do Brasil. Dois episódios, em particular, tornaram-se pilares da identidade local, mas, com o passar do tempo, fundiram-se numa narrativa confusa e anacrônica: a Batalha de Curitibanos, ocorrida em 12 de janeiro de 1840 no contexto da Revolução Farroupilha, e os degolamentos perpetrados no chamado Capão da Mortandade durante a Revolução Federalista, em 1893. A confluência desses eventos na tradição oral, transformando um único local em palco simbólico de ambos os conflitos, representa um desafio historiográfico significativo. Este artigo tem como objetivo realizar uma distinção precisa e documentada entre estes dois momentos históricos, deslindando a teia de fatos, personagens e cronologias que foram amalgamados pela transmissão oral e por interesses locais. Através da tríade metodológica fundamental, as memórias dos protagonistas, os periódicos da época e a historiografia especializada, buscaremos reconstituir a Batalha de Curitibanos em sua real dimensão e localização, para, em contraponto, elucidar a origem sombria do topônimo “Capão da Mortandade” e sua inextricável ligação com a prática da degola na Revolução Federalista. Mais do que uma simples correção factual, esta análise busca resgatar a integridade dos processos históricos e honrar a memória dos que neles pereceram, sepultados tanto pela terra quanto pelo esquecimento ou pela imprecisão.
1. Contexto Preliminar: A Revolução Farroupilha e a Invasão de Santa Catarina
Para compreender a Batalha de Curitibanos, é imperioso situá-la no seio da Revolução Farroupilha (1835-1845), também conhecida como Guerra dos Farrapos. O movimento, eclodido no Rio Grande do Sul, foi essencialmente uma reação da elite estancieira e charqueadora gaúcha contra a política fiscal do Império, que sobrecarregava com pesados impostos o charque local, enquanto favorecia a concorrência do produto platino. Essa insatisfação econômica, somada a questões políticas de autonomia provincial, levou à proclamação da República Rio-Grandense em 11 de setembro de 1836, sob a liderança de figuras como Bento Gonçalves e Antônio de Souza Neto.
Em 1839, o conflito ganhou novo fôlego e uma dimensão internacional com a adesão do mercenário italiano Giuseppe Garibaldi. No mesmo ano, em uma audaciosa manobra de expansão do movimento, Garibaldi e o coronel David Canabarro lideraram uma incursão em Santa Catarina, tomando a cidade de Laguna no final do mês de julho. Foi nesse contexto que se proclamou a efêmera República Juliana e onde Garibaldi conheceu Ana Maria de Jesus Ribeiro da Silva, a jovem que ficaria para a história como Anita Garibaldi. No entanto, a vitória foi breve. Em novembro de 1839, as forças imperiais retomaram Laguna, forçando os farroupilhas a uma retirada estratégica.
Foi durante essa retirada que as tropas se dividiram. Enquanto Canabarro seguiu pelo litoral em direção ao Rio Grande do Sul, Garibaldi, Anita e o coronel Joaquim Teixeira Nunes optaram por uma rota interior, seguindo pelo Caminho dos Conventos. Seu objetivo era ambicioso: atingir Bom Jesus, no território gaúcho, para depois retornar a Santa Catarina, especificamente à vila de Lages. Ali, planejavam recrutar novos combatentes e se reorganizar antes de tentar a reconquista de Laguna. Antes de cruzar o Passo de Santa Vitória, (local onde se atravessava o Rio Pelotas), em direção a Santa Catarina, os farroupilhas (gaúchos insurretos) se agruparam com outros rebeldes, formando um contingente de aproximadamente 500 homens. Este grupo, reduzido por causa da batalha no Passo de Santa Vitória e em fuga, seria o ator principal do episódio que a história registraria como a Batalha de Curitibanos.
2. A Batalha de Curitibanos (12 de janeiro de 1840): Uma Reconstituição Documentada
2.1. A Marcha para o Oeste e o Acampamento no Rio Marombas
Após uma breve estadia em Lages durante dezembro de 1839 e os primeiros dias de 1840, os farroupilhas, sob o comando de Teixeira Nunes e com a presença de Garibaldi, decidiram lançar uma expedição rumo ao oeste. É crucial notar que, na época, a vasta região que englobava os atuais municípios de Curitibanos e Campos Novos, estendendo-se até o Rio Marombas, integrava o território da vila de Lages. A marcha, conforme descrita nas “Memórias de Garibaldi” (edição de 1872), consumiu três dias. Segundo as palavras de Garibaldi, no livro “Memories di Garibaldi, edição de 1907, na página 64 em italiano diz que “Pochi furono i feriti d'ogni parte — poichè poca gente d'ambi i lati avea preso parte alla pugna” (havia poucos feridos de ambos os lados, já que poucas pessoas de ambos os lados haviam participado da batalha).
A logística dessa jornada é perfeitamente plausível. Considerando que um soldado de infantaria pode percorrer cerca de 5 quilômetros por hora, em uma jornada diária de 10 horas seria possível alcançar aproximadamente 50 quilômetros, dependendo do terreno e das condições físicas. A distância entre Lages e o Passo do Rio Marombas (local onde se atravessava o Rio Marombas) é de cerca de 100 quilômetros, o que torna a média de 33 quilômetros por dia uma estimativa realista para uma tropa em movimento. O acampamento foi estabelecido nas proximidades do vau (passo) do Rio Marombas, uma posição estratégica para controlar a passagem e monitorar a possível aproximação de possíveis tropas imperiais.
2.2. O Confronto: Estratégia, Engano e Derrota
O relato mais vívido e autorizado do confronto vem da mente do próprio Giuseppe Garibaldi. Em suas memórias, ele descreveu como foram surpreendidos no amanhecer do dia 12 de janeiro por uma força imperial numericamente superior, comandada pelo tenente-coronel Antônio de Melo Albuquerque. As forças farroupilhas, de acordo com os escritos das memórias de Garibaldi e confirmados pela historiadora curitibanense Zélia de Andrade Lemos, eram bem menores (Dumas, 2010, p. 84). Somavam cerca de 150 homens. Deste total, aproximadamente 80 compunham a infantaria, sob o comando de Garibaldi, e entre 40 e 50 formavam a cavalaria, liderada por Teixeira Nunes. Incluía-se também o pessoal de suprimentos, grupo no qual se encontrava Anita Garibaldi.
O desenrolar da batalha foi marcado por um erro tático crucial do coronel Teixeira Nunes. Ele estava muito confiante, justificado pela esplendorosa vitória no Passo de Santa Vitória no final do ano de 1839, quando 500 farroupilhas derrotaram 2.000 soldados imperiais. Annita Itália Garibaldi, neta do casal, em seu livro “Garibaldi na América”, na página 52, analisa que o comandante, “talvez envaidecido pela recente victoria, julgando quasi y segura também a próxima”, subestimou o inimigo. A tática imperial consistiu em um recuo estratégico, atraindo a cavalaria farroupilha para longe da infantaria de Garibaldi e fazendo-a acreditar que os inimigos fugiam para a outra margem do rio. A realidade, porém, era uma emboscada: a cavalaria imperial estava oculta nas encostas florestadas do Rio Marombas.
Joaquim Teixeira Nunes, sem aguardar o apoio da infantaria, lançou-se impetuosamente ao ataque e caiu na cilada. Sua cavalaria, composta em parte por prisioneiros recrutados à força após o Passo de Santa Vitória, homens que, portanto, não tinham lealdade à causa farroupilha, foi surpreendida por fogo cruzado nas encostas ou barrancas do Rio Marombas. Desorganizou-se rapidamente e debandou. Dessa forma, sabemos que o confronto principal se deu, assim, nas barrancas do rio. Vários escritores, ao escrever sobre a batalha de Curitibanos, perpetuaram em seus escritos que a batalha se deu na margem do Rio e não dentro de um capão ou floresta.
Enquanto isso, a infantaria de Garibaldi, que vinha na retaguarda, refugiou-se em um capão de mato próximo. O combate neste segundo front foi menos intenso, sem grandes baixas para nenhum dos lados. O próprio Garibaldi é categórico ao afirmar: “o número de mortos e feridos de parte a parte foi pouco numeroso, porque as tropas que tomaram parte no combate eram diminutas”. As estimativas, baseadas em seu relato e em análises historiográficas, apontam para cerca de 20 a 30 baixas farroupilhas no total, um número condizente com o efetivo reduzido que travaria um combate de escaramuça e não uma batalha campal. Desses, a maioria foram homens da cavalaria que seguiram as ordens de Teixeira Nunes, alguns da infantaria de Garibaldi e outros da retaguarda onde estava Anita. Dos 80 que seguiam Garibaldi, 73 voltaram com ele para Lages. Nenhum dos cavaleiros voltou para Lages, pelo contrário, os que não foram abatidos na emboscada nos flancos do Rio Marombas debandaram.
2.3. A Retirada e o Destino dos Mortos
Impossibilitados de enfrentar o numeroso exército imperial, Garibaldi e 73 homens de infantaria iniciaram uma retirada desesperada em direção a Lages, adentrando um denso capão de mato (Lemos, 1983, p. 84). Anita Garibaldi, capturada durante o confronto, foi levada à presença do comandante imperial, Antônio de Melo Albuquerque. Com astúcia, conseguiu permissão para revistar os corpos caídos em busca de Garibaldi e, não o encontrando, logrou fugir na escuridão da noite, embrenhando-se no mesmo mato por onde seu companheiro e os demais soldados haviam escapado. Após dias de privações, fome e dificuldades extremas, descritas de forma vívida por Garibaldi, que menciona a alimentação à base de raízes e o desânimo que levou até mesmo a deserções, o grupo conseguiu, enfim, reunir-se e alcançar Lages (Dumas, 2010, p. 89).
Quanto ao destino dos corpos dos combatentes abatidos, a história guarda um silêncio quase absoluto. Não há qualquer registro documental confiável que ateste seu sepultamento em vala comum ou em qualquer local específico. Especular sobre um enterro cristão e organizado é projetar uma sensibilidade contemporânea sobre uma realidade histórica brutal. Conforme apontam as fontes, não era prática comum dos exércitos da época sepultar os corpos dos inimigos. Alternativas mais pragmáticas, como lançar os cadáveres no rio ou deixá-los à mercê da ação de animais necrófagos, são infinitamente mais plausíveis. O paradeiro final desses homens permanece, portanto, um mistério histórico insolúvel.
3. A Gênese de um Equívoco: A Visita de Annita Itália Garibaldi e a Invenção de uma Tradição
A associação do Capão da Mortandade com a Batalha de Curitibanos não é contemporânea aos fatos, mas uma construção posterior, gestada quase noventa anos depois. O evento catalisador desta confusão foi a visita, em 1929, de Annita Itália Garibaldi, que se apresentou como neta de Giuseppe e Anita Garibaldi (Lemos, 1983, p. 87). Vinda da Itália com o propósito de conhecer os locais por onde seus avós haviam lutado, ela foi recebida na prefeitura de Curitibanos, então sob o comando de Henrique Paes de Almeida (Filho), que designou seu secretário, Walter Tenório Cavalcanti, para acompanhá-la em sua missão em território curitibanense.
Guiada até a Fazenda da Forquilha, de propriedade de Altino Gonçalves de Farias, Annita foi informada sobre a existência de uma cruz de madeira fincada no interior de um capão, a cerca de uma milha do Passo do Marombas. Ao visitar o local, depositou flores na base da cruz. Em seu livro, ela descreveu esse momento: “No estremo desse bosque vê-se ainda hoje uma antiga cruz inclinada, meio occulta em basta vegetação, a qual assignala a sepultura de alguns soldados republicanos. Depositei alli algumas flores, em homenagem á memória desse punhado de heroes” (Garibaldi, 1931, p. 53). É importante salientar que Altino Gonçalves de Farias não era nascido em 1840, ocasião da Revolução Farroupilha e tinha 11 anos na época da Revolução Federalista de 1893. Era, portanto, uma criança na ocasião do segundo conflito.
Este relato, porém, contém incongruências geográficas e quantitativas decisivas. Annita menciona que o capão estava a “uma milha de distância” (cerca de 1,6 quilômetros) do local do confronto, o que não coincide com a localização atual do Capão da Mortandade (Garibaldi, 1931, p. 53). Além disso, ela é precisa ao falar em “alguns soldados” e, em um artigo no jornal “O Estado” de Florianópolis, chega a mencionar “duas cruzes” que assinalavam a sepultura de “dois capitães”. A narrativa de uma vala comum com centenas de cadáveres é, portanto, uma inflação posterior e sem base nos registros da neta dos Garibaldi. Não há registro algum sobre esses sepultamentos em massa, nem registros nas memórias de Garibaldi sobre mortos durante a volta para Lages, consequentemente, nada sobre a construção de sepulturas ou confecção de cruzes. Isso tudo, apesar de alguns homens feridos, que suportaram a jornada até Lages.
A partir daquela visita, a família Farias, interessada em valorizar a história local, como registrou Zélia de Andrade Lemos em relação a Francisco Carneiro de Farias, filho de Altino, passou a difundir a ideia de que aquele sítio era o local da Batalha de Curitibanos. O gesto simbólico de Annita Itália Garibaldi foi, assim, reinterpretado e amplificado, dando origem a uma tradição que, embora bem-intencionada, carecia de rigor histórico (Lemos, 1983, p. 87).
4. A Revolução Federalista (1893-1895) e a Prática da Degola
Mais de cinquenta anos após a Batalha de Curitibanos, a região voltou a ser palco de um conflito sangrento, mas de natureza profundamente distinta: a Revolução Federalista! Eclodida no Rio Grande do Sul, este foi um conflito fundamentalmente político, opondo os federalistas (ou maragatos), liderados por Gaspar Silveira Martins e pelo experiente guerrilheiro da Guerra do Paraguai, Gumercindo Saraiva, aos republicanos (ou pica-paus/ximangos), partidários do presidente do estado Júlio de Castilhos.
Em 7 de novembro de 1893, pressionados pelas forças legalistas, os maragatos, sob o comando de Gumercindo Saraiva, invadiram Santa Catarina, dirigindo-se a Lages e, posteriormente, a Curitibanos (Villalba, 1897, p.105). Acamparam nos campos da Fazenda Estância Nova (Lemos, 1983, p. 92). Após cruzar as densas matas da região, suas tropas enfrentaram vários pequenos confrontos, consequência inevitável de uma invasão em território hostil.
No Passo do Rio Canoas, o embate deixou muitos mortos e feridos de ambos os lados (Villalba, 1897, p.105). Os relatos da época, preservados pela tradição oral, contam que o ribombar dos canhões ecoou até a sede da vila de Curitibanos durante aqueles dois dias, marcando a memória dos moradores (Lemos, 1983, p. 92).
Perseguidos incessantemente pelas tropas legalistas, os revoltosos chegaram a Curitibanos e acamparam nos campos da Fazenda Estância Nova, na região oeste. Neste acampamento houve um pequeno combate entre as forças de Gumercindo e os legalistas curitibanenses. De acordo com relatos orais de antigos curitibanenses que viveram na Fazenda Estância Nova, na manhã seguinte, aos pés de um pinheiro que existe até os dias de hoje, foi encontrado o corneteiro da tropa dos maragatos sem vida. Após um minucioso exame, não foram encontradas marcas de ferimentos no seu corpo. Ficou um consenso de que provavelmente esse corneteiro morrera de algum mal súbito ou de um infarto. Atualmente os moradores mais velhos de Curitibanos conhecem este pinheiro, localizado na Fazenda Estância Nova como Pinheiro Corneteiro ou Pinheiro do Corneteiro.
A passagem de Gumercindo por Curitibanos foi marcada pela tensão e pela traição. O líder maragato acreditava contar com o apoio local, especialmente de figuras como o superintendente (uma espécie de prefeito da época) Francisco Ferreira de Albuquerque e o major da Guarda Nacional Marcos Gonçalves de Farias (Presidente do Conselho ou Câmara Municipal), pai de Altino Gonçalves de Farias. No entanto, ambos, mesmo simpáticos à causa federalista, receberam ordens superiores do Coronel Córdova, de Lages, para negar apoio aos maragatos (Lemos, 1983, p. 92).
A reação de Gumercindo Saraiva foi brutal. Sentindo-se traído e necessitando impor terror para garantir sua retaguarda, ordenou uma série de execuções sumárias. É neste contexto que o “Capão da Mortandade” emerge na história com seu nome sinistro. Conforme registrou o advogado e historiador Walter Tenório Cavalcanti, que na infância acompanhou a neta de Garibaldi escreveu posteriormente que “na Revolução Federalista, de 1893, nas proximidades de Curitibanos, a seis quilômetros da hoje cidade, ainda é conhecido o “Capão da Mortandade”. Ali houve feroz luta, não sabemos qual a extensão do combate, sabemos apenas que 21 homens foram cercados naquele “capão” (pequena área coberta de árvores), entregaram-se e foram todos mortos.” (Cavalcanti, 2006, p. 122). A prática que caracterizou a Revolução Federalista e que lhe rendeu o apelido de “Revolução da Degola” foi exatamente o método de execução utilizado: a degola. Esta prática, embora presente de forma esporádica em conflitos anteriores, tornou-se a marca registrada e sistemática deste conflito, uma ferramenta de terror psicológico e de eliminação física do inimigo. Alguns homens antes de serem degolados eram castrados, como forma de extrema tortura.
Portanto, o topônimo “Mortandade” não deriva de uma batalha campal com baixas em combate, mas de um episódio de execução sumária, um massacre. Esta correlação é reforçada pela existência de outros locais com nomes similares no Rio Grande do Sul, como o “Capão da Mortandade” entre Barra Funda e Chapada, onde 370 pessoas foram degoladas, e a “Lagoa da Mortandade” em Eugênio de Castro, todos vinculados à Revolução Federalista.
A confusão posterior é compreensível, mas deve ser desfeita. A família Farias, que possuía a Fazenda da Forquilha onde ficava o capão, viveu na pele o terror da Revolução Federalista. Marcos Gonçalves de Farias foi alvo de uma tentativa de degolamento pelos maragatos e conseguiu fugir milagrosamente. É especulativo, porém plausível, que ele ou sua família tenham cedido o terreno para o enterro coletivo das vítimas daquela revolução. Nas gerações seguintes, a memória dos dois conflitos, a Farroupilha, com seus heróis românticos como Garibaldi, e a Federalista, com seu trauma brutal, teria se fundido, transferindo para o período mais antigo e glorioso a tragédia ocorrida no local.
A Revolução Federalista terminou somente em 1895. Meses depois da passagem de Gumercindo Saraiva por Curitibanos, passou pela região voltando do Paraná, o irmão de Gumercindo, de nome Aparício Saraiva. Quando saíram do Paraná, os maragatos dividiram-se em três grupos, os quais tinham a intenção de se reencontrarem semanas depois para cruzar o Rio Uruguai em direção ao Rio Grande do Sul (Damin, 2023, p. 187). Em Curitibanos, Aparício submeteu seus homens a intensos combates contra as forças legalistas. Encontramos nos registros das Ordens do Dia Revolucionárias informações de que os embates em Curitibanos foram além do imaginado ou difundido ao longo dos anos por historiadores e difusores da história. Houve uma memorável batalha em Curitibanos no dia 22 de setembro de 1894. Na Ordem do Dia n.º 1, emitida no Acampamento no Passo do Rio Marombas, datada de 21 de setembro de 1894, organizou-se as forças militares que operaram no município de Curitibanos. (Ordens do Dia Revolucionárias, 1897, p. 18). O texto contem importantes informações como “O Major Antonio Ruivo deverá reunir os patriotas Curitybanenses, commandará o regimento, logo que tenha pessoal suficiente. Vadeando hoje o Rio Marombas, espero que amanhã daremos combate aos nossos inimigos, infringindo lhes terrível derrota.” (Ordens do Dia Revolucionárias, 1897, p. 19).
Na ordem do Dia n.º 2, o Coronel João Nepomuceno da Costa, comandante da Columna Curitybanense ou do grupamento responsável por dar combate contra os homens de Aparício Saraiva regozijou-se pela vitória frente aos federalistas ou maragatos “é indescritível a satisfação do soldado que, cônscio da sublimidade da causa que defende, vê as suas armas coroadas da mais estrondosa victoria. (...) Devo manifestar os meus sinceros agradecimentos pelo muito que fizestes no combate de hontem, derrotando completamente o inimigo e tomando esta villa. Esses escritos foram emitidos no Acampamento na villa de Curitybanos, em 23 de setembro de 1894 (Ordens do Dia Revolucionárias, 1897, p. 19).
Na ordem do Dia n.º 3, o Coronel João Nepomuceno da Costa, comandante da Columna Curitybanense informou que o combate se deu num lugar chamado Goiabeira, no dia 22 de setembro de 1894 (Ordens do Dia Revolucionárias, 1897, p. 20). Esse lugar é um capão de mato que existe na Fazenda Estância Nova, conhecido popularmente pelos mais antigos e moradores da região como “goaiaveira”.
Na Ordem do Dia, datada de 27 de setembro de 1894, o Coronel José Joaquim de Córdova Passos (Coronel Córdova) relatou que “a villa de Curitybanos acaba de libertar-se do jugo da tyrannia. O nosso ilustre e presado camarada, Coronel João Nepomuceno da Costa, à frente de uma pequena columna de denodados defensores da liberdade, atacou aquelle reducto inimigo e, com a bravura, táctica e intrepidez que lhe são peculiares, tomou-a vantajosamente, após renhida luta de mais de três horas de nutrido fogo. (Ordens do Dia Revolucionárias, 1897, p. 6-7)”.
Na Ordem do Dia n.º 5, datada de 3 de outubro de 1894, o Coronel João Nepomuceno da Costa, comandante da Columna Curitybanense informou que enquanto festejavam a vitória ocorrida nas coxilhas da Goiabeira, tiveram que repentinamente retirar-se da vila de Curitibanos porque Aparício Saraiva e seu exército composto por cerca de dez vezes mais numeroso que a Columna Curitybanense se aproximava. Após isso a Columna Curitybanense foi reorganizada (Ordens do Dia Revolucionárias, 1897, p. 22)”.
O escritor Cláudio Júnior Damin escreveu no seu livro, “1893, Sangue na Lagoa Vermelha”, na página 187, que Aparício Saraiva passou por Curitibanos com um grupamento de 1.800 a 2.000 homens, o que foi um número considerável. Supõe-se por essa razão, não haver, força legalista capaz de deter todo esse contingente.
Voltando aos escritos de Walter Tenório Cavalcanti que relatam os degolamentos no Capão da Mortandade, e também aos relatos orais que foram transmitidos de pai para filho durante os mais de 130 anos desde a passagem e Gumercindo, e também com os relatos de que no local há pessoas enterradas numa vala comum, não se pode descartar tal hipótese porque não há registros dos sepultamentos desses 21 degolados. Há, todavia, a possibilidade de que alguém tenha aberto uma vala no local e depositado os corpos desses anônimos.
5. Distinções Conclusivas: Dois Episódios, Duas Histórias
A análise documental permite estabelecer uma distinção cristalina entre a Batalha de Curitibanos de 1840 e os eventos do Capão da Mortandade em 1893. Por uma memória mais precisa e um patrimônio histórico verdadeiro concluímos que o monumento erguido no Capão da Mortandade, com sua cruz de metal e sua placa de bronze, é, sem dúvida, um patrimônio histórico e cultural importante para Curitibanos. Ele materializa o desejo da comunidade de honrar seu passado e de manter viva a chama da memória. No entanto, a preservação desse patrimônio não deve ser feita às custas da verdade histórica. Perpetuar a inverdade de que ali se travou uma grande batalha farroupilha e que centenas de combatentes, ali tombou, é fazer um desserviço à história e desrespeitar a memória tanto dos que morreram em 1840 quanto dos que foram brutalmente executados em 1893.
A Batalha de Curitibanos, um episódio menor, mas significativo da trajetória de Garibaldi e Anita nas Américas, ocorreu às margens do Rio Marombas. Foi um confronto tático, com baixas limitadas, do qual os principais protagonistas escaparam para continuar sua saga. O Capão da Mortandade, por outro lado, é um lugar de horror, um símbolo da crueldade que caracterizou a Revolução Federalista. Seu nome ecoa não o estrondo da batalha, mas o silêncio sinistro que se segue a uma execução em massa.
Distinguir esses dois eventos não é um mero exercício de pedantismo acadêmico. É um ato de justiça histórica. É devolver a cada episódio seu significado próprio, a cada grupo de vítimas sua história específica, e à população de Curitibanos uma compreensão mais clara e verdadeira das forças que moldaram sua terra. O Capão da Mortandade deve ser lembrado e visitado, mas como um memorial das vítimas da degola na Revolução Federalista. Já a Batalha de Curitibanos deve ser buscada e compreendida em sua localização real, às margens do Rio Marombas, onde a história, de fato, aconteceu. Só assim a memória poderá ser, de fato, um farol para o futuro, e não um espelho distorcido do passado.
Anualmente, por ocasião dos dias próximos ao 20 de setembro, cavaleiros celebram a memória da Revolução Farroupilha dirigindo-se ao Capão da Mortandade. Preservar a história local é importante, mas é igualmente crucial fazê-lo com precisão histórica. Em Curitibanos, no ano de 2024, foi fundada uma associação de cavaleiros com o objetivo de manter viva a tradição, em especial a do tropeirismo local. A sugestão que se propõe é que as cavalgadas até o Capão da Mortandade passem a recordar os eventos da Revolução Federalista, os quais transcorreram em novembro, mais precisamente em referência a novembro de 1893, e não ao 20 de setembro de 1835. Ou então, que tal cavalgadas até o capão da Goiabeira, na Fazenda Estância Nova, onde houveram confrontos em 22 de setembro de 1894, conforme descritos nas “Ordens do Dia Revolucionárias” já referenciadas?
Outra sugestão relevante consiste em remover a placa informativa sobre a Revolução Farroupilha, atualmente fixada no Capão da Mortandade, e refazer um novo monumento nas proximidades do antigo Passo do Rio Marombas ou em outro local adequado, como lembrança da Batalha de Curitibanos. A referida placa contém erros sobre as pessoas supostamente sepultadas no local, e não há comprovação científica da existência de qualquer sepultamento de soldados farroupilhas que tenham participado do evento ocorrido em 1840, em Curitibanos.
Referências:
BRAGA, Francisco. Annita Garibaldi Opera-baile em 4 actos. Jornal A Federação. Porto Alegre, 1912.
CADORIN, Adilcio. Anita, Guerreira das Repúblicas e da Liberdade. CulturAnita. Instituto Cultural Anita Garibaldi. 5ª Ed. 2020.
CAVALCANTI, Walter Tenório. Guerra do Contestado: verdade histórica. 2.ed. Florianópolis: Ed. da UFSC, 2006. 135 p.
COLLOR, Lindolfo Boeckel. Garibaldi e a Guerra dos Farrapos. Brasília: Senado Federal, 2016.
DAMIN, Cláudio Júnior. 1893, sangue na Lagoa Vermelha: episódios da revolução federalista no Rio Grande do Sul. Porto Alegre : Martins Livreiro-Editora, 2023. 380 p.
DUMAS, Alexandre. Memoires de Garibaldi. Porto Alegre/RS, L&PM Editores, 2010.
GARIBALDI, Annita Itália. Garibaldi na América. Tradução de Renato Travassos. Alba. Rio de Janeiro, 1931.
GARIBALDI, Giuseppe; DUMAS, Alexandre. Memórias de Garibaldi. Brasil. Editora Barbudânia.
GARIBALDI, Giuseppe. Memorie. Edizione diplomatica dall'autografo definitivo. Editor: Ernesto Nathan. Torino. 1907 : Release Date: February 5, 2018.
Informações do pesquisador e historiador curitibanense Aldair Goeten de Moraes.
LEMOS, Zélia de Andrade. Curitibanos na história do Contestado. Edição do Governo do Estado de Santa Catarina, 1977.
LEMOS, Zélia de Andrade. Curitibanos na história do contestado — 2.ª Edição revista e aumentada, Impressora Frei Rogério Ltda. 1983 : Curitibanos/SC, 222 p.
Ordens do Dia Revolucionárias (Santa Catharina, Paraná e Rio-Grande do Sul). Organizadas por um capitão-secretário do Exército Libertador. Rio de Janeiro, Companhia Typográphica do Brazil. 1897, 34 p.
Vários artigos dos jornais: A Nação (Blumenau), Correio da Manhã (Rio de Janeiro), O Estado (Florianópolis).
VILLALBA, Epaminondas. Revolução Federalista. Laemmert & C.ª – Editores. Rio de Janeiro, S. Paulo e Recife : 1897, 422 p.
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Antonio Carlos Popinhaki é membro do Conselho de Políticas Culturais na área de História e Memória Cultural, Arquivos, Bibliotecas, Pesquisa e Documentação entre os anos de 2016 e 2025; Bacharel em Economia Agroindustrial pela Universidade do Contestado. Graduado em Licenciatura em História pelo Centro Universitário UniFaveni. Pós-graduado em Auditoria e Perícia Contábil pela Universidade Católica Dom Bosco. — Professor, escritor, historiador e pesquisador de história. Desde o ano de 2021 é o Coordenador do Arquivo Histórico do Museu Histórico Antonio Granemann de Souza de Curitibanos/SC.
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