segunda-feira, 31 de março de 2025

Memórias de Elesbão Goetten

Memórias de Elesbão Goetten


Sou filho de José Goetten Sobrinho e Balbina Chaves Goetten, nasci na Fazenda Rio Correntes, em Curitibanos, Santa Catarina, no dia 27 de outubro de 1907. Meu pai faleceu quando eu tinha 21 anos, e ele, 61. Como filho mais velho, eu acompanhava meu pai em viagens desde os 7 anos, indo a Curitibanos e em outras fazendas de seus amigos. Sempre viajávamos a cavalo, percorrendo até 6 léguas de distância.

Com essa vida, adquiri muita prática em tudo que diz respeito à vida campeira. Na fazenda, eu acompanhava os rodeios, ajudava a salgar o gado e contava o rebanho de cada invernada. Participava ativamente da compra e venda de gado. Assim, aprendi a administrar uma fazenda. As roças, de cerca de 5 a 6 alqueires, eram cultivadas com foice e machado. Plantávamos milho, feijão e abóbora, sendo o milho e a abóbora para consumo próprio. Também fazíamos farinha de milho, usando monjolos, e cultivávamos mandioca para a produção de farinha. Reuníamos muitas pessoas para raspar, lavar e ralar a mandioca, tudo feito manualmente.

Trabalhei muito. Nos dias anteriores à produção de farinha, eu cortava lenha e madrugava para arrumá-la. Essas atividades ocorriam principalmente no inverno, e segui assim até os 40 anos.

Aos 10 anos, fui estudar em Blumenau, Santa Catarina, em um colégio público. A fazenda de meu pai tinha 68 milhões de metros quadrados (2.720 alqueires), com cerca de 2.000 cabeças de gado de excelente qualidade, além de cavalos e mulas. Usávamos tropas de mulas e burros para transportar colheitas e fazer viagens próximas a Blumenau, onde comprávamos mantimentos como sal, açúcar, café, arroz, querosene e tecidos.

Aos 19 anos, comecei a viajar com essas tropas, acompanhado de um camarada e um madrinheiro. Cada burro carregava 120 kg, e algumas viagens duravam 21 a 22 dias, ida e volta, subindo e descendo serras.

Por volta dos 21 anos, assumi a administração da fazenda. Entre 24 e 25 anos, casei-me com Alcidália C. de Moraes, de família tradicional curitibanense. Tivemos oito filhos: Alba, Neusa, Adelma (todas no Paraná), Adelmir José, Avanil, Nivaldo, Osny e Luiz Carlos. Dei estudo a todos, com dois formados: Adelmir, pecuarista, e Osny, também pecuarista no Tocantins. Os outros seguiram diferentes profissões.

Durante meus estudos, viajava a cavalo até Blumenau e só voltava para casa no fim do ano, devido às dificuldades. Hoje, minha família é numerosa, espalhada pelo Paraná e Conceição do Araguaia, no Pará, onde morei. Na data que escrevo este texto, tenho 39 netos e 26 bisnetos. Foi no Pará que perdi minha esposa, Alcidália, em 23 de março de 1989. Ela está sepultada em Guaraí, Tocantins, em uma capela doada por nosso filho Adelmir, onde também está reservado meu espaço.

Vendi minha herança no Rio Correntes e comprei terras em Perdizinhas, atualmente, território pertencente ao município de Lebon Régis, Santa Catarina, onde trabalhei muito. Na época, Perdizinhas era também conhecida como São Sebastião da Boa Vista e pertencia ao território de Curitibanos. Fui nomeado juiz de paz pelo prefeito Salomão Carneiro de Almeida. Todos os sábados, eu estava no cartório para casamentos e outros serviços. De minha propriedade em Perdizinhas, viajava 3 léguas, enfrentando frio no inverno. Sempre ajudei a comunidade, como era meu dever.

Morei em Lebon Régis por alguns anos, onde fui nomeado Intendente Distrital pelo mesmo prefeito. Lá, fundei um grupo escolar, doando madeira para sua construção, e melhorei estradas e pontilhões. Sempre fui um homem de bom coração, ajudando os necessitados.

Nas viagens, enfrentávamos índios bravos. Levávamos cães ferozes e eu estava sempre armado com uma Winchester e um revólver. Nas estradas, a cada 500 metros, havia cercadinhos e cruzes marcando onde tropeiros haviam sido mortos.

Deixar o Rio Correntes foi doloroso, principalmente para minha mãe e irmãos. Mas segui para Perdizinhas e depois Lebon Régis, visitando-os mensalmente. As viagens com tropas até Rio do Sul (Lontras) levavam 20 a 22 dias, ida e volta, por caminhos difíceis, sem estradas ou pontes.

Aos 11 anos, já observava tudo. Meu pai era generoso, doando bois aos pobres e recebendo políticos em nossa casa.

Hoje, em Guaraí, Tocantins, com 85 anos, relembro o passado com saudade. Saúdo os curitibanenses como irmãos e recebo muitas visitas em minha casa. Deixo este relato para minhas netas Cátia e Estela, que vivem comigo e são minha alegria. Minhas três netas que criei: Eliane, hoje casada e com um bebê (meu bisneto), e Cátia e Estela, que brilham como estrelas ao meu lado. Fui sócio do Aéro Clube de Palmas, contribuindo conforme meu diploma de sócio emérito.

Casei-me em 4 de abril de 1932, na Fazenda Perdizinhas. Partimos do Rio Correntes com 65 cavaleiros. O casamento foi às 16 horas, seguido de um grande baile com o sanfoneiro Francisco Travasco.

Nas serras de Santa Catarina, eu ouvia o canto das arapongas, que soavam como sinos ou ferreiros batendo metal. Jamais esqueci desse som.

Em Curitibanos, atravessávamos costumeiramente o Rio Marombas, com os animais nadando e a carga disposta em canoas. Lembro-me também dos conflitos com jagunços em Irani, Palmas e outras regiões. Meu pai, com medo, fugiu para o Rio Canoas com 200 bois. Quem não aderisse ao movimento tinha a fazenda queimada. Muitos morreram, e depois veio a gripe espanhola.

Vivi 57 anos felizes com minha esposa. Também, morei em Laranjeiras do Sul, Paraná, onde fui juiz de paz e liderei uma propriedade de 100 alqueires, cultivando milho, feijão, arroz e trigo. Em Palmas, recebi o título de Benemérito pelo Clube Aires Palmense.

Assim, deixo registrada minha história, com gratidão e saudades.


Guaraí, Tocantins, 27 de Outubro de 1.992.